DENISE FRAGA

Inventora de personagens e enredos

"Sou uma atriz que se lança muito" Foto: Zé Paulo Cardeal/TV Globo

Quem espera encontrar na atriz Denise Fraga os traços mais evidentes que a tornaram famosa em papéis humorísticos, na televisão e no teatro, pode desconcertar-se no primeiro olhar.

A atriz sabe ser reservada e discreta, mesmo nos momentos em que partilha seu entusiasmo pela carreira ou anima-se com a menção aos projetos que idealiza e executa em parceria com o marido, o diretor Luiz Villaça.

Como um cientista que analisa seu objeto de estudo, ela se dispõe a dissecar com riqueza de detalhes a tarefa de representar e inventar personagens. Pode estender-se em minúcias sobre as características da comédia, do drama, do teatro, do cinema.

É capaz ainda de completar com trechos inteiros de peças que já encenou um raciocínio sobre a magia do teatro e analisar de maneira aguda as tendências no estilo de direção de atores. Seu poder de observação é imenso. Sua disposição para criar também, como se pode constatar na longa entrevista que concedeu, em São Paulo, no escritório de sua produtora.

Denise é uma carioca – do subúrbio de Lins de Vasconcelos, como faz questão de enfatizar – que se considera um caso bem-sucedido de adaptação aos ares paulistanos. É lá que cria os dois filhos e alimenta uma vida impregnada de arte e delicadeza. (Beth Cataldo)

“O palco é o grande exercício do erro.”

Pergunta – No passado, as mulheres sequer podiam representar no palco, cabendo aos homens atuar travestidos em papéis femininos. No início do século XX, as atrizes eram estigmatizadas como pessoas de má reputação. Agora que vivemos na era das celebridades, o que significa ser atriz?
Resposta – Acho que isso mudou mesmo, e não sei em que geração exatamente. Mas eu briguei com a minha família para ser atriz – ainda. Não exatamente por uma questão de má reputação ou porque fosse considerada uma turma de marginais, como acho que acontecia antigamente. Mas porque era uma profissão que não daria futuro a ninguém. `Ah, a Denise lá e os teatros dela´,  diziam. Na verdade, a minha mãe me deu muita força. Mas a minha família em geral e o meu pai só me chamaram mesmo de atriz depois que eu fiz televisão. Meu pai falava assim para mim `ah, que legal, minha filha, mas você não quer fazer um concurso para o Banco do Brasil? Aquele teatro ali, até você…´ Acho que tem isso, infelizmente, hoje. A televisão é uma indústria muito forte, que invade a casa das pessoas e legitima muito um ator. Quando você fala que é atriz, perguntam que novela você faz. Não devem estar indo muito a teatro, não é?

P – Embora seja legítimo também ser uma atriz mais de televisão ou de cinema.
R – Sim, super legítimo. O que digo é que uma atriz só de teatro ou só de cinema, para o público em geral, tem que ficar explicando muito o que faz se não aparece na televisão. Mas você falou da questão das celebridades.. Muita gente, os jovens que querem ser atores, chega para mim e pergunta como é que faz, qual o caminho. E eu acho muito louco porque a profissão mudou muito com essa história das celebridades. Tenho até a impressão que muita gente deve se tornar ator e achar isso muito chato. Porque a profissão exige repetir, tem que ler, ensaiar, decorar, que é uma coisa chata de fazer. E você tem que ficar bordando, tem de ter uma coisa de uma minúcia, lendo aquele texto várias vezes – aqui eu vou falar assim, não, vou falar assim, vou dar a pausa aqui.

P- É um exercício necessário?
R- É preciso esse exercício de concentração, se fechar dentro de um quarto, ficar falando sozinha. Acho que, com essa história de celebridade, muita gente cai hoje dentro da profissão desavisado, completamente desavisado. Eu sinto que a profissão está mudando. Hoje tem tribos de atores, há vários atores que nunca pisaram num palco. E deixam de ser atores por causa disso? Não, são atores. A única pena é porque o palco é o grande exercício do erro. As pessoas falam, mas por que essa coisa toda com o teatro? Acho que o teatro te melhora como ator porque é a sua academia, é um músculo exercitado. Em primeiro lugar, porque você ensaia dois meses, digamos. E o ensaio é o único lugar em que você pode errar. Tanto no cinema, em que se ensaia um pouco mais do que na TV, como na própria televisão, você tem que definir rapidamente como a sua cena vai ser.


P- Ou seja, o teatro te dá mais recursos?

R- No teatro, eu digo, você tem mais alternativas, vôos, pode alternar – para um lado, para o outro, jogo aqui… Hoje eu viro para o meu diretor e falo assim `você deixa hoje eu fazer, sei lá, com sotaque japonês?´ Pode parecer uma idéia maluca, ele pode falar não, eu falo ‘deixa, por favor, só hoje´. Faço tudo com sotaque japonês, não serve absolutamente para nada, menos naquela cena, em que aquele sotaque japonês me remeteu a uma rapidez que eu deveria ter naquela cena. Então, aquele sotaque japonês me salvou a concepção daquela cena. Eu percebi o ritmo que eu poderia ter através dessa investida. É um tipo de coisa assim, eu dei um exemplo meio tosco. Você tem mais ousadia de ir para um lado e pro outro. O teatro acaba te dando mais recursos, por você buscar, por você errar. É um jogo de erro e acerto, de combinação entre a sua idéia, a idéia do diretor e o que você pode oferecer para ele. Ele pode falar um dia ´fique parada, não quero que você olhe pro lado`. E aquilo te prende, te engessa. No dia seguinte você vai descobrindo aos poucos como aquilo pode ficar orgânico para você, como pode ser melhor de uma certa maneira – não era a tua idéia, não era a idéia dele, é uma terceira via, um terceiro caminho. Isso é a grande coisa do teatro.

P – Por isso o grande fascínio que o teatro exerce sobre os atores?
R – Quando a gente fala que o teatro é o lugar do ator, o lugar do laboratório, é exatamente isso, a possibilidade de errar. E aí vem a temporada. Quando vem a temporada, você tem o amanhã com aquela mesma partitura. Você fez hoje e naquela hora ali você fala assim ‘ainda não achei, isso aqui não está bom`. Você sabe que não está orgânico para você, a cena não está funcionando. Você tem que dar um abraço no outro ator e aquele abraço não encaixa. Então, são coisas que você vai achando. Até um dia em que você acha aquilo. Aí fica com aquilo um mês, ali na ponta da agulha. Perde de novo! Então, o teatro é aquele cara do circo que segura os pratinhos e você vai rodando aqui, o outro começa a cair lá. Eu adoro ficar em cartaz no teatro. Quando dá aquele terceiro sinal, para mim, às vezes, é assim ‘vamos para o campo dos sonhos, vamos para aquele lugar`. O espetáculo não pode parar. Isso é um trato básico. Não pára. Dá um medo, um medo bom. É um jogo, um jogo de vôlei. Um atleta pulando do alto da piscina, com aquele salto ornamental. O que ele vai fazer ali no meio, vai ser o que for. A princípio, não vai parar. Só uma coisa muito grave faz o espetáculo parar.

P – E o que acontece com quem está em cima do palco?
R – Às vezes, estou em cena e vendo os outros atores… No ano passado, eu fiz um Shakespeare, o Ricardo II e, em alguns momentos, eu olhava em cena e ouvia as pessoas falando daquele jeito (eleva a voz). Não era nem muito impostada a peça, porque a gente fez num tom bastante coloquial. A adaptação do Jô Soares para a peça era muito boa. Mas no teatro você tem aquela impostação porque você fala para todo mundo ouvir. Eu fui olhando, e foi me dando uma sensação assim, nossa, que louco, que profissão absurda é essa, a gente aqui com essas roupas, eles aqui fingindo que acreditam, nós fingindo que acreditamos. E assim é.

P – É uma invenção?
R – E ainda muito primitiva, diante de tantos meios audiovisuais, diante de tanta tecnologia, de cabos por onde as coisas aparecem em formas. De repente, a gente vai lá, sobe uma escadinha, entra num lugar, ainda é muito simples. O Flávio Rangel já dizia que o teatro é o moribundo mais antigo de que se tem notícia. Ele está morrendo há muito tempo. Um diretor italiano dizia que o público ainda continua indo ao teatro na grande esperança de ver um ator morrer em cena. Acho que é isso mesmo. Não é que você queira que o ator morra. Mas você sabe que o que está acontecendo ali está realmente acontecendo. É o aqui e agora que faz as pessoas irem ao teatro.

"O artista é o grande espelho do mundo. É aquele que faz o mundo se ver, olhar para sua vida, refletir, avaliar." Foto: Divulgação

P- Representar é um dom?
R – É o dom de observar a vida enquanto ela passa. Tem pessoas que se inserem de tal maneira na vida e no cotidiano que não têm a capacidade de se olhar e ver que aquilo é uma vida, uma passagem. E aí podemos entrar num campo mais místico. Quando eu era pequena, a minha mãe estava chorando no sofá e eu segurei a mão dela, eu estava condoída com a dor dela, era um problema de família, uma doença. Eu também estava muito triste, mas olhei para ela e pensei assim: ‘nossa, como ela chora bem, que bonito`. E eu não era atriz, nem tinha essa aspiração! Eu tinha uns dez, doze anos. Na verdade, eu me lembro que achei bonito ela chorar. Era uma cena muito bonita. Artista, de uma certa maneira, tem isso, tem essa percepção, ‘olha isso que eu estou vivendo`, enquanto está vivendo.

P- Ser atriz é a sua maneira de estar no mundo?
R – Sem dúvida. Mais do que isso, são enviados (risos). Eu exagerei agora! Mas acho que são mesmo pessoas escolhidas para ser espelho do mundo. O artista é o grande espelho do mundo. É aquele que faz o mundo se ver, faz o mundo olhar para sua vida, refletir, avaliar… A tal da catarse no teatro é ‘um viver com`, é ‘um estar com`, uma comunhão. O artista é um ser necessário em qualquer sociedade. Tanto que as sociedades mais primitivas comem, bebem, dormem, se reproduzem e fazem arte. É pão e circo. Desde a Idade da Pedra, você vê lá as danças, os desenhos rupestres, as manifestações artísticas, o que é essencial ao humano, não pode existir o ser humano sem isso.

P – Dentro da linha da pesquisa que realizamos, passamos pelo Teatro de Revista, as comédias cariocas, chegamos às chanchadas. Você se considera um pouco herdeira dessa linhagem?
R- Costumo dizer que eu, Marisa Orth, Débora Bloch, Andréa Beltrão um pouco, Regina Casé muito, somos todas filhas de Marília. Acho que nós, de alguma maneira, herdamos uma maneira de representar de que a Marília Pêra foi meio a mentora. Só que Marília se diz filha de Dulcina. Acho que a gente vem por aí, meio comédia e drama. Essa comédia que não é só a chanchada, que é essa comédia dramática, que é essa atriz que fica nesse limiar. Tem uma coisa que vai se passando, as gerações vão herdando sem querer, às vezes, sem observar. Sem ter nunca ter visto Marília, uma pessoa pode representar como ela. É uma tendência de uma época. Uma coisa que me amedronta muito…não é que me amedronte… É que eu sou muito fora disso, não é que eu seja fora… Fala, Denise! (risos) É que acho que agora tem um culto ao menos. Tudo é menos. Na televisão, é menos. No cinema, é menos. Quanto menos representar… Quando só a cara estiver ali, sem nada, parece que é melhor.

P – Isso frustra um pouco?
R- Acho um desperdício, na verdade. Entendo que quando vou fazer cinema preciso fazer menos, num tom menor; televisão, num tom menor. Mas isso está ficando de uma maneira que empobrece. A gente, às vezes, quer ver um ator se rasgando, num momento de emoção. Várias coisas, às vezes, são muito fortes quando ditas assim, sei lá, estou num close e digo (abaixa o tom de voz) ‘eu nunca mais vou agüentar uma morte na minha vida`. Tem um peso, isso existe como força. Mas isso não pode ser lei, porque dependendo do personagem eu diria (eleva o tom de voz) ‘eu nunca mais vou agüentar uma morte na minha vida!` Depende do personagem, depende da história que você está contando. Então, acho que se está economizando muito o ator que se tem na mão. E se isso continua, acho que você cria – como eu falei da Marília – uma nova tendência de atores mais gélidos.

P – Inexpressivos, talvez.
R – Dependendo da hora, isso tem uma expressão danada. Um close, imóvel, às vezes, tem muito mais expressão do que um esgar. Mas nós, brasileiros, temos uma tradição, uma cadência, um jogo de cintura, não é uma coisa estática.

P – Isso vale mesmo para São Paulo, onde as pessoas são mais contidas em relação ao Rio ou ao Nordeste?
R- Mesmo em São Paulo, que tem comediantes fantásticos, que vão pras cabeças, que vão para os limites. Não que eu ache que todo trabalho… Senão, fica parecendo que eu quero puxar a brasa para a minha sardinha de comediante, não é isso. Sempre vejo na TV, no cinema, sinto um ator falando assim (abaixa o tom de voz, quase inaudível) – nada, não faz nada. Não é sempre, mas tem se pedido muito isso. Às vezes, é ótimo, mas não pode ser uma lei, porque vira um desperdício de atores.

P- Isso não tem a ver com o momento nosso, como sociedade, de também estarmos sendo obrigados a nos tornar mais contidos de alguma maneira?
R – Sem dúvida. Porque nós, de alguma maneira, somos convidados todos os dias a não nos comprometermos.

P- O fato de vivermos em sociedades mais violentas, que nos obrigam a nos proteger por trás de portões, grades ….
R – É tudo, também na relação de trabalho. Na sala de uma empresa, todas aquelas baias, as pessoas estão atrás de sua baiazinha e mandam um e-mail para alguém que está ao seu lado. Vira aquele local silencioso. Acho que o mundo, de uma certa maneira, se profissionalizou, ficou menos espontâneo. Somos convidados, dia após dia, a não ser espontâneos, a ser reservado. Isso, claro, pode reverberar na interpretação. Porque um diretor que está te dirigindo, com medo daquela opção que você está dando para ele de cair de joelhos na cena da morte de seu filho no filme, ele se segura e fala ‘não, só fica aí, hirta`. Por quê? Porque cair de joelho é uma escolha drástica. Ficar hirta pode significar isso ou aquilo, ou aquilo outro ou aquilo outro. Então, fico com essa que eu tenho mais opções, menos chance de erro. Só que, vamos combinar, o mundo vai ficar mais sem graça. A longo prazo, cria uma sociedade mais sem graça, menos comprometida com o outro, com mais medo de errar. Impossível errar, parece que não se pode mais errar, o erro não faz parte. Portanto, mais difícil de viver e mais sem graça, menos divertido.

P- Gostaria de falar um pouco sobre o teatro de inspiração política, dos anos 60 e 70. Você acha que isso deixou alguma marca na dramaturgia brasileira ou é alguma coisa muito datada?
R- Na minissérie Queridos Amigos, tive contato com as questões políticas daquela época. É uma parte da nossa história, vergonhosamente inesquecível. É uma loucura que a gente tenha vivido isso. É interessante também observar o comprometimento que as pessoas tinham com uma causa, com uma idéia. E principalmente uma fé de que algo estava por vir, uma época melhor viria. Isso se perdeu. Essa esperança de que vai chegar uma hora. E isso ficava muito à mercê do dia em que a esquerda estivesse no poder. Na hora em que a esquerda estivesse no poder, tudo estaria resolvido. E não foi assim, não foi bem assim. O ser humano é muito mais complicado. Como diz o Juca de Oliveira – adoro ele, é meu parceiro – o homem é um projeto que não deu certo.

" A gente tem que olhar para o outro. É urgente que a gente se comprometa mais, se relacione mais. Como um exercício... As pessoas estão com muito medo de se relacionar." Foto: Zé Paulo Cardeal/TV Globo

P- É o terreno das relações humanas que é mais complexo, não?
R – Sem nenhuma tentativa aqui de fazer um discurso cristão, a gente tem que olhar para o outro. É urgente que a gente se comprometa mais, que se relacione mais. Como um exercício, não estou propondo prazer, estou propondo exercício. Esse exercício, eu acredito, dará prazer. Mas as pessoas não se casam mais, você vai ao supermercado e aquelas fatias de pão, quatro fatias de pão, temos isso. Vi isso na Europa anos atrás e achei um absurdo. As pessoas estão preferindo morar sozinhas porque, claro, casamento dá trabalho. As pessoas optam por não ter filhos, optam por não se casar. Outro dia, uma amiga minha disse que estava na faculdade e que tinha de fazer um trabalho em grupo. Olha o trabalho que dá fazer um estudo em grupo, ter que organizar, ir à casa do outro, o outro ir à sua casa, coisa mais antiga! Hoje, todo mundo se fala pela internet. E ela contou que propôs não fazer o trabalho em grupo, cada um fazia uma parte e depois reunia tudo… Porque as pessoas estão com muito medo de se relacionar.

P – Abrindo a nossa conversa para a sua personagem em Queridos Amigos, a Bia, como é que você transitou para um papel tão dramático? Embora você já tenha feito tanta coisa em teatro, em televisão você é muito conhecida pela comédia, pela abordagem bem-humorada, como no Retrato Falado. De repente, o papel de uma militante política, que foi torturada, com toda aquela carga…
R – Acho que o público não me conhecia em outras coisas. Mas durante todo esse tempo venho fazendo coisas mais dramáticas. Por trás do pano, que é o primeiro longa que a gente fez – eu e o Luís (Villaça) -, o Cristina quer casar. Tinha essa coisa da comédia cotidiana, mas era um tom dramático, uma pessoa vivendo aquela situação ali. Agora, a Bia foi um papel extremamente dramático. Eu tinha passado antes pelo Ricardo III, em que eu fazia uma tragédia, uma mulher que perdia tudo – o poder, os filhos, o marido. Hoje, gostaria de ter feito a Bia antes da Elizabeth, de Ricardo III. Porque faria com muito mais desenvoltura. Para uma comediante, e era um texto clássico, é muito difícil você dizer, por exemplo, ‘Abro o meu peito para poder respirar`. Não é que seja difícil isso, mas você falar isso convictamente, dramaticamente, ‘cuidem desses pobres príncipes, meigos…` Era um trecho tão bonito. São coisas que você, como comediante, está arriscada a pensar que aquele tom te remete a uma crítica ao melodrama. Hoje, vejo que se eu tivesse feito a Bia antes, teria me rasgado mais na Elizabeth, sem pudor. Como era uma coisa que eu achava que tinha de vir de dentro, muito de dentro, e eu tinha que me descabelar, me jogar pelo palco e cair no chão arrastada, eu ficava presa dentro dessa coisa.

P – E com a Bia?
R – No início, eu também estava muito aflita com essa história do menos. As orientações que eu tinha é que ela era pisciana – eu tinha estudado um pouco de astrologia para fazer a personagem porque ela era astróloga. O pisciano é um ser derramado, ele é choroso, emotivo. Ela não conseguia digerir esse trauma, era uma coisa da qual ela falava sempre. As palavras que a Adelaide (Amaral) colocava no texto eram muito fortes. Não era uma coisa seca, digamos. E aí, na hora, eu decidi, por mim, que ia embora, que ia me derramar, que se eu errasse para quarenta milhões de brasileiros estava tudo bem! Ah, eu não vou me poupar, não podia morrer na praia com um personagem desses.

P – É uma sensação recorrente para você?
R- Tenho muito isso, uma pena de perder aquela vida, aquela carona naquela vida, mais do que de perder aquela oportunidade de me mostrar. Quando eu estou trabalhando, graças a Deus, eu penso pouco no resultado. Sempre falo isso, o que vale é o processo. A Bia já foi. Lá, naquela hora em que eu estava fazendo as minhas cenas, naquela hora em que eu estava em frangalhos ali, isso para mim é o inesquecível porque é uma vivência que eu tive sem ter tido. Uma coisa que ficava no meu corpo depois. Um dia, fiz uma cena e quando cheguei no camarim o meu queixo não parava de bater, eu estava suando e não estava calor. A minha perna fazia assim, sabe quando o músculo fica… Eu pensei assim, que coisa louca é essa profissão que provoca isso nos seus músculos, no seu corpo, em você, fisicamente. Eu saia depois de um dia de gravação com uma coisa no peito. Sabe quando acontece alguma coisa na sua vida, que você perde pessoas queridas, você chora o dia inteiro? Você está em estado choroso. Para mim é muito aqui (aponta o coração), é uma coisa que fica.

P- É um processo gratificante?
R – É maravilhoso que você possa provocar isso. Mas eu fico pensando, viver como eu tive que viver Ricardo III, de quinta a domingo, durante um ano e meio… Do jeito que eu fiz não era bom. Hoje, talvez fizesse um pouco mais tecnicamente, não sei. Porque eu ficava buscando esse negócio de dentro. Eu deveria ter me servido muito mais da minha voz, do meu corpo, e ido pras cabeças, dado os berros que eu tivesse que dar (eleva a voz), com propriedade, segurança. Com propriedade sobre a minha voz, sobre a minha respiração, e sem precisar sofrer a cada noite. No Ricardo III, eu, ingenuamente, por ser uma comediante, achava que se não sofresse não estava valendo, ficava catando em mim esse sofrimento toda noite. Como diz Lawrence Olivier, não somos nós que temos de sofrer, são eles. Quem chora são eles, nós não choramos!

“A televisão está sofrendo desse problema aquático. A lágrima tem um valor enorme na televisão.”

P – Existe uma valorização maior do sofrimento na interpretação?
R - Tem, é bonito, é valorizado. O ator que chora, que derrama a lágrima. Aliás, eu digo que a televisão está sofrendo desse problema aquático (risos). Porque a lágrima tem um valor enorme na televisão, enorme. E olha que um olho marejado, às vezes, é muito mais forte. Uma pessoa com vontade de chorar me dá muito mais vontade de chorar do que uma pessoa chorando. É engraçado porque a lágrima na televisão tem um valor enorme, uma lágrima que cai. Uma vez uma menina, numa dessas cidades em que eu fui com o teatro, disse para mim: ‘Eu queria tanto ser atriz`, foi tão impressionante, ‘olha como eu sei chorar…` E chorou!

P – No caso das personagens dramáticas, você queria correr esse risco, viver outras facetas como atriz?
R- Queria muito. Acho que todo ator quer correr risco. Ator não resiste a um papel muito diferente de si mesmo.

P – Por que isso?
R- Por essa vida múltipla mesmo. Viver o que você nunca seria capaz de viver nessa vida. Acho que tem isso, esse querer viver tudo, querer viver o outro. O ofício do ator é uma coisa sensacional. Pega uma arma, dá um tiro, o cara cai e depois se levanta. Uma vida só não basta. O nome do meu livro vai ser esse, Uma vida só não basta (risos).

P- A experiência do ator é muito peculiar porque envolve alguma coisa muito física, é o seu corpo…
R- Você se empresta. E eu sou uma atriz que se lança muito. Às vezes, eu me machuco bem. Se tem cena de briga, sabe? Uma vez, tinha que rasgar a roupa de uma atriz de quem eu tinha ciúme com o meu marido, numa novela. No ensaio, achei que estava gravando, eu fui pra cima dela e rasguei a roupa da atriz. Teve que parar tudo, esperar costurar. Uma vergonha..

P- Tem aquela pergunta clássica que é feita em toda entrevista com atrizes e atores – o que você prefere, cinema, teatro ou televisão?
R – Estou muito fascinada pelo cinema. Eu escolheria o cinema. Aliás, eu queria muito fazer mais cinema. Acho que as pessoas não me convidam para fazer cinema porque acham que eu sou aquela comediante do Retrato Falado. E não viram outras coisas que eu fiz. Eu posso descer esse tom. O cinema requer mesmo que você faça num tom menor, a tela é muito grande. O seu olho num close é uma coisa assim… (risos)

P – Você gosta de se ver?
Resposta – Não, a gente sofre muito se vendo. Procuro me ver porque se corrige muita coisa. Mas é sempre sofrido. Porque o filme que passa na nossa cabeça é sempre aquele melhor filme europeu, é o que você faz quando lê o roteiro e você se imagina lá, com aquelas pausas, aquele cabelo, aquele cachecol, aquela pele clara e aquele olhar profundo. Você sempre imagina atrizes que você conhece. Quando você faz a cena, você está se imaginando no melhor de você. E sempre fica aquém. Eu falo para os meus filhos, leiam, vejam filmes também, mas leiam porque a imaginação é o melhor filme.

P- Você comentou sobre a influência de Marília Pêra nas atrizes da sua geração e gostaria de saber como foi a experiência de contracenar com outra grande atriz brasileira, a Fernanda Montenegro.
R- Foi genial. Foi lindo. Ela é uma referência para todos nós, um mito. Ela é a maior. Eu fiquei muito impressionada. Outro dia, mandei um e-mail para ela agradecendo. Falei da possibilidade de vê-la fazer a mágica. Porque você dá uma fala banal para ela e a maneira com que ela constrói isso na boca, a maneira como ela desorganiza isso para dizer.

P- Um domínio vocal também impressionante, não?
R- É muito impressionante aonde ela põe a voz, e ela diz, ela finca aquele olho e espera. Ela é senhora daquele ofício plenamente. Então, foi muito bonito vê-la de perto, dentro daquela indústria que é a TV, porque cada um se vira uma hora como pode porque é uma correria. Você vê-la construindo, ali, mesmo com o fogo pegando, é lindo, lindo.

P- Nessa época de padrões industriais, rigorosos, haveria espaço para uma história como a do filme O Crime da Atriz, em que a personagem se lança em busca de um espaço maior em cena e compete com os outros atores?
R – Acho que não. O que existe, às vezes, são truques, mas é uma coisa mais antiga, que na televisão a gente conhece como ‘chamar a câmera”. O ator indica que vai falar, o cara que está cortando pluga para ele, só que ainda não é a fala dele, só está reagindo para chamar a câmera. Coisinhas bobas assim. Não é assim, digamos, pertinente mais. Mas essa coisa de roubar a cena, sempre tem. Enquanto um está falando, no teatro, o outro está fazendo gestos. Mas isso são códigos, vai se acomodando. Pode ter uma briguinha aqui ou ali por causa disso. Graças a Deus, vivi pouco isso.

P- Ao contrário da realidade que o filme retrata, no final do século XIX, existe hoje uma carreira estruturada para as atrizes no Brasil ou tudo depende de um sucesso ocasional?
R – É muito variado. Quando você vai construindo uma história maior de trabalho, chega uma hora em que, se não tiver um contrato com a televisão, vai fazer teatro, viajar pelo Brasil com a peça ou levantar aquele curta-metragem em que está trabalhando no roteiro. Você vai tentando, primeiro, pagar suas contas, o leite das crianças. O mais louco é que, mesmo com um contrato com a televisão, quando você é picada por esse bichinho, o que graças a Deus aconteceu na minha vida, que é produzir os seus projetos, você não descansa mais. Chega uma hora em que dá vontade de falar assim ‘Deus, é brincadeira`. Dá vontade de descansar, de se dar uma trégua. Um ano sem pensar em nada. Mas é quase impossível, porque você vai ver uma peça, quer saber que autor é aquele, pedir os outros textos dele. Aí, você gostou daquele autor, lê e diz que isso daria um filme maravilhoso! Você liga para alguém que é roteirista pergunta o que ele acha. Não que eu não vá trabalhar em outros, até gostaria que as pessoas soubessem que não estou fechada aqui dentro dos meus projetos. Eu aceito convites e é muito bom sair da ilha que você criou.

P – Você fica mais plural, não?
R- Você põe a cabeça para fora da janela e vê coisas além das suas perspectivas, outras leituras, outros ângulos, outras maneiras de ver. E se tudo der errado, eu faço o que eu fiz pela primeira vez, rifo o relógio do meu tio, que me deu um relógio para rifar, pego a cortina da casa da minha avó, uma cortina que cobre três cadeiras juntas, costuro e faço um sofá. Foi assim que a gente montou a primeira peça, eu e meu grupo de teatro.

P- Quando foi isso?
Resposta – Foi em 1987, no Rio. A gente montou As desgraças de uma criança. Ensaiamos no quintal da minha casa e passamos a bater perna, pegar ônibus e ir de escola em escola. Fizemos uma lista das escolas do Rio de Janeiro e falávamos que estávamos estudando Martins Pena, França Jr, Joaquim Manoel de Macedo, Arthur Azevedo. Falávamos da importância de conhecer a nossa dramaturgia. A gente fez com isso uma história muito bonita. Engraçado, eu nem ia falar disso, mas foi tão importante para mim.

“Nós decoramos textos enormes!”

P- Existe um estilo brasileiro de representar?
R – Acho que posso dizer daquela coisa da malemolência, um certo jogo de cintura, uma cadência. A gente é molinho. Isso talvez seja um traço de um representar brasileiro. Esse negócio que a gente faz com as telenovelas, em nenhum lugar do mundo se faz. Essa coisa que um protagonista de novela faz, que é decorar cem laudas por semana – por semana -, não existe isso. Tanto que o (Marcos) Caruso tem uma história interessante, quando ele foi fazer uma novela na Itália. Chegou lá e começou a ter as reuniões, os ensaios, conhecer os atores. Quando os atores começaram a receber os textos, perguntaram,´mas e o ponto? Decorar? Não fazemos isso`.

P- Como é que eles fazem?
R- É ponto, ninguém decora, não existe essa coisa de decorar. É louco porque nós decoramos. Talvez isso seja um grande traço do representar brasileiro, nós decoramos textos enormes!

P – E como é viver sob holofotes? É difícil, invasivo? Isso nos remete de novo à questão das celebridades.
R- É uma profissão de muita exposição. Ao mesmo tempo em que é a melhor profissão do mundo, por isso tudo que eu falei, por essa coisa das múltiplas vidas, é uma profissão em que você permite que te metam o dedo no nariz. Você vai lá, sobe num palco, faz um negócio e aí uma pessoa que está sentada no meio da platéia, fala (levanta a voz) assim: ‘Não, não, Denise, não, Denise, assim não, faz assim”. Você vai lá e faz. ‘Não, Denise, ficou ruim.” Você está ali toda noite, se expondo para aquelas pessoas gostarem ou não de você. E essa história de dizer que o ator fica muito sujeito aos elogios, funciona com os elogios. Funciona com elogios sim, claro, nós nos expomos. A princípio, somos exibidos por natureza, o que não significa que não sejamos tímidos. Agora, eu aprendi a falar, mas, por natureza, era muito tímida.

P – Mesmo no teatro?
R- O teatro, na verdade, foi o primeiro lugar onde eu senti um certo conforto porque eu não era responsável pelos meus atos, porque me escondia de alguma maneira. Acho que isso foi o grande lance na minha vida, porque me deu mais segurança. Descobri uma coisa que eu gostava muito de fazer, que diziam que eu fazia bem. E essa aceitação realmente te move, principalmente nessa profissão. Não existe nada pior para um ator do que saber que você é um mau ator, que você é um canastrão. E tem atores que são insistentes. É admirável até porque existem atores que todo mundo acha ruins e eles continuam trabalhando ali, eles estão ali. É um amor muito grande à profissão, um amor por fazer aquele negócio independente desse reconhecimento.

P – É até uma característica dos atores, não? Em geral, eles amam muito a profissão.
R- Ninguém força você a ser ator. Seu pai pode forçar você a ser médico, a ser engenheiro. Você briga muito para ser ator. Então, na hora que você consegue superar, pagar o seu primeiro aluguel com a sua profissão, você não sabe a alegria que é. Ah, é muito bom. Então, para mim, que era super dura… A minha família é uma família de classe média cheque especial. Não faltava comida, mas de vez em quando tinha ovo. Na hora em que você resolve ser atriz é meio um sonho impossível. Não tinha ninguém na minha família que fosse ator, não tinha nenhuma tradição, artista nenhum. Lá em Lins de Vasconcelos, no Rio de Janeiro, subúrbio do Rio, eu resolvi ser atriz.

P – E eles se surpreenderam com a sua trajetória?
Resposta – Muito, muito. Acho que até hoje. Eles são muito orgulhosos de mim, sinto muito isso, fico feliz. Tenho uma família muito grande, no Rio, no subúrbio, muito churrasco no domingo, fico com muita saudade disso. Vivo em São Paulo há muito anos. Na verdade, sou um caso raro de adaptação, com prazer, de cariocas em São Paulo. Também isso se deve ao fato de eu não ter água salgada na veia. Não sou da beira-mar porque morava no subúrbio até os 24 anos. Depois é que eu morei na Zona Sul. Quando morava no subúrbio, ia à praia todo final de semana de ônibus. É como o paulista que vai para o litoral no final da semana. E tem a coisa do bairro. Então, tem uma identificaçãozinha.

P – Aliás, as pessoas têm uma imagem do carioca meio permissiva, meio liberada, mas os bairros são tradicionalíssimos.
R- Preciso fazer um Nélson Rodrigues na minha vida, eu sou completamente suburbana! E ele é da Tijuca. Eu sou mais, sou ali do lado do Grajaú, sou Lins de Vasconcelos. Eu entendo tanto o texto do Nelson, tanto, tanto. Mas eu estava falando que é por isso que, acho, me adaptei em São Paulo, embora sinta muita falta da família. Eu sinto muita falta de mesa cheia, minha casa é uma casa de vila, a porta ficava aberta e quem entrasse, entrava. Quando você via, tinha uma pessoa já na sala. A casa da minha bisavó era numa rua e os filhos foram se casando e fazendo uma tribo em volta. Na verdade, hoje eu tenho a minha família, os filhos, mas cada vez que eu vou lá fico muito aflita porque o tempo é muito cruel. Eu chego lá e eles estão cada vez mais velhos, as pessoas da minha vida. Pessoalmente, ando com a impressão de que esse mundo está muito grande para mim.

“O cinema tem a mesma coisa sagrada do teatro.”

P- Por quê? Você queria uma coisa menor, mais aconchegante?
R – Queria, eu me sinto fora do meu tempo. Eu seria mais feliz em 1950. O que sinto é que eu não dou conta disso tudo, eu sou muito distraída.. Também eu tenho muito elemento ar no meu mapa astral, eu sou libra, ar, e aquário, lua em aquário. Muito sonho, o campo do sonho, eu fico imaginando como poderia ser. Um lado místico, tenho bastante isso. Essa coisa das pessoas dizerem que você tem que acessar o site, de perguntarem se você nunca entrou no orkut. Eu nunca entrei no orkut, não sei o que se faz lá, por que eu preciso do Orkut, fico pensando. Eu quero ler todos esses livros. Abro o jornal e vejo uma página inteira de roteiro de cinema e o que eu faço com todos esses filmes? Eu não vou ter tempo de ver..

P – É uma ansiedade enorme que isso provoca, não?
R- Sim, provoca. O mundo te oferece muitas coisas boas, oportunidades imperdíveis. Todas imperdíveis! Eu faço muitas coisas no dia, sou mãe e muito presente, graças a Deus, porque adoro também ser mãe. Vou até lançar um livro sobre isso. Tenho uma coluna e escrevo sobre esse encostar-se na parede que é ser mãe. Então, tenho as crianças, o trabalho e você quer cumprir com aquilo tudo. No fim, você realmente não dá conta. Todo dia que acaba é uma frustração, sempre a sensação de que você não fez. Mas você fez muitas coisas, seu dia rendeu muito. É que você não dá conta deste mundo.

P- Por fim, gostaria que você falasse um pouco mais sobre o cinema, que é a sua preferência, como você disse.
R- Acho que o cinema tem um negócio sagrado. Não sei se é porque a gente produziu e o cinema é muito caro para você conseguir levantar um projeto de cinema. É um negócio que, quando você consegue, carrega como um tesouro. A câmera rodando, você sabe que não pode errar, se errar, queimou o negativo. Então, é uma concentração absoluta de todo mundo, o ensaiar antes. A impressão que tenho é que o cinema tem a mesma coisa sagrada do teatro. Mas de uma outra maneira. É como se naquela película, com aqueles fotogramas, de alguma maneira você estivesse ali colorindo quadrinho a quadrinho. Na hora em que escolho virar a cabeça assim, ou virar assim, estou fazendo uma pintura.

P -  Ou seja, uma grande paixão.
R – Eu adoro fazer cinema, eu queria fazer mais. Quando você vai para a cena, vai pular do trapézio! Você vai dar um salto mortal. E ao mesmo tempo você tem que fazer tudo isso parecer que não está fazendo esforço nenhum. Tudo ali, a vida existindo ali aos pedacinhos, que você fabrica fazendo umas coisas ali. Então, é muito lindo o cinema, essa representação mínima, você lidar com o absolutamente real, quase um naturalismo. No teatro, você tem aquela caixa da lápis que você tinha como família de classe média cheque especial, a caixa de lápis de doze cores. Um dia, aquela sua tia rica te deu aquela de 36 cores, sabe? E tem aquele salmão, aquele marrom ocre. Quando você trabalha com cinema essa gama da sua paleta se amplia muito.

P- Isso também exige um exercício muito grande de observação das expressões humanas. Você é uma pessoa que observa muito o outro?
Resposta – Acho que sim. Naturalmente a gente faz isso. Com o Retrato Falado, acho que fiquei muito assim também. Um dia, estava vendo um vídeo com uma atriz que tem um jeito de falar muito particular. Aí, não agüentei. Quando me dei conta, eu já estava fazendo igual. Sem perceber, fui fazendo. Somos observadores da vida para criar o espelho.



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