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Brasília: que cidade é essa?

Brasília: Que Cidade é Essa?

O título do livro publicado pela Tema Editorial no cinquentenário de Brasília continua válido dez anos depois. Afinal, que cidade é essa? “Não se sedia o poder impunemente”, escreveu o jornalista Ruy Fabiano na coletânea publicada pela editora. No texto, ele esquadrinha a geografia do poder para concluir que seu núcleo forjou uma cidade dentro da cidade – ou “um país dentro do país”.

O livro Brasília aos 50 anos: que cidade é essa? traz não apenas o magistral “Viver com o poder”, escrito por Fabiano e publicado na íntegra a seguir, como também outros ensaios que mantêm atualidade e frescor.  As fotos de Ricardo Labastier, como a que ilustra este post, e o design de Chico Amaral completam esse projeto marcante, que teve Beth Cataldo e Graça Ramos como organizadoras.

Com um olhar instigante sobre essa cidade que incendiou o imaginário brasileiro em sua construção, os 15 autores do livro percorrem diferentes facetas de Brasília, da arquitetura à cultura, passando pelo impacto econômico e a posição singular que ocupa no mundo. Os 60 anos da cidade, mesmo comemorados de forma tímida pela imposição dos tempos da covid-19, representam uma oportunidade para se refletir sobre a capital brasileira e seu significado para o país.

VIVER COM O PODER 

Ruy Fabiano

O custo – moral e político – de sediar o poder é, foi e continuará sendo sempre alto. Dele, nenhuma cidade que vive ou viveu essa experiência é, foi ou será poupada.

Basta ver o que de Salvador, nossa primeira capital, dizia, no século XVII, o poeta Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno: “Que falta nesta cidade?… Verdade/Que mais por sua desonra?… Honra/Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha”.

Qualquer cidadão brasileiro contemporâneo, diante do escândalo político do dia (e eis aí algo que jamais nos faltou, da colônia à república), já pensou algo semelhante de Brasília, em termos ainda mais contundentes.

Da mesma forma, no passado nem tão distante, o país se referia à “corja do Catete”, quando a capital federal era no Rio de Janeiro. Cada país tem o seu equivalente. Quem tiver dúvidas consulte, entre outros testemunhos literários abundantes, as memórias do Duque de Saint-Simon sobre a corte de Luís XIV, na Paris da transição dos séculos XVII para XVIII. Ou Balzac, em Eugenia Grandet, a constatar que, num sarau, em Paris, “se cometem mais crimes do que a Justiça pune nos tribunais do júri”.

Não se sedia o poder impunemente. Em qualquer parte e em qualquer época, desde a espectral Babilônia (à qual Disraeli comparou a Londres vitoriana), o poder forja sempre seus subterrâneos. Daí o inevitável, compreensível e necessário cacoete humano de nele projetar suas frustrações, suspeitas e revoltas. No imaginário popular, poder e pecado são palavras sinônimas – e não por acaso, diga-se. Brasília, pois, paga seu preço.

Compartilha as mazelas de suas congêneres em todo o mundo, o que não a impede de ter suas peculiaridades – o estilo com que desempenha esse papel, a imagem que projeta no país e as mutações por que passou, ao longo das cinco décadas de sua existência. E é disso que trataremos aqui: o poder em Brasília. Há conceitos que se aplicam universalmente quando se aborda o tema; outros derivam do ambiente específico que o acolhe. Em Brasília, é fácil perceber – e distinguir – as duas circunstâncias.

Desde sua fundação, acolheu as mais diferentes correntes ideológicas – direita, centro, esquerda. Foi democrática na origem, ditatorial na sequência e chega ao cinquentenário novamente democrática. Não obstante essas mutações, continua sendo vista como um lugar bem longe do Brasil. A ilha da fantasia.

Aqui governaram lideranças tão distintas, antípodas mesmo, quanto o general Emílio Médici, o intelectual Fernando Henrique Cardoso e o ex-metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva.

Todos, porém, se ajustaram à cidade – e nenhum a mudou substantivamente. Todos adquiriram a dicção palaciana, o hábito de contemplar o país à distância. E não foi, afinal, para isso mesmo que a capital se transferiu do litoral carioca para a solidão do Planalto?

Como dizia Vinícius de Morais, na Sinfonia da Alvorada, “no princípio, era o ermo”. Mas isso ficou para trás. Hoje, Brasília é tão populosa quanto as principais capitais fora do eixo Rio-São Paulo, com quase três milhões de habitantes (considerando-se o seu entorno, as cidades-dormitórios). Mas o núcleo do poder com ela não se mistura. Forjou uma cidade dentro da cidade.

Ou um país dentro do país.

“Não se sedia o poder impunemente. Em qualquer parte e em qualquer época, desde a espectral Babilônia (à qual Disraeli comparou a Londres vitoriana), o poder forja sempre seus subterrâneos.”

Tem geografia própria, que não se resume às pistas da Esplanada dos Ministérios, que desembocam na Praça dos Três Poderes e, na sequência, leva aos palácios do Jaburu (residência do vice-presidente) e da Alvorada (residência do presidente). Estende-se por alguns restaurantes e lobbies de hotéis de luxo, por mansões dos Lagos Sul e Norte e apartamentos do Plano Piloto. Tem no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek seu ponto de partida e de chegada. O poder habita a ponte aérea.

Vive entre parênteses, impermeável aos demais habitantes da cidade, que, no entanto, sentem-se (e são) atingidos pelos conceitos e preconceitos que a cidade suscita no restante do país.

Mas há uma cidade como outra qualquer pulsando em Brasília; cidade que ganha o pão com o suor do rosto, se endivida e se indigna com os desmandos da governança, compartilhando as aflições dos demais brasileiros; cidade que, em poucas décadas, reproduz o cinturão de carência de uma periferia violenta, como as periferias das demais capitais. Assim como há a Baixada Fluminense, formada em três séculos ao redor da antiga capital federal, há a “Baixada Brasiliense”, formada em poucas décadas na periferia do poder no Planalto. Não é dessa Brasília que falaremos. É da que está entre parênteses. A que vive na ponte aérea.

Muitos já buscaram rotulá-la, sem sucesso. O falecido costureiro Clodovil Hernandez, após eleger-se deputado federal, em 2006, com uma expressiva soma de votos, caiu na armadilha de imaginar que poderia mudá-la. Declarou que ela jamais seria a mesma após sua chegada. Brasília, porém, nem o percebeu. Ele morreu, dois anos depois, e a cidade continuou a mesma de sempre.

Outros artistas e personagens do jet set caíram na mesma ilusão de impressioná-la, sem êxito. O já falecido psicanalista carioca Eduardo Mascarenhas pontificava nas colunas sociais do Rio de Janeiro nos anos 80 do século passado. Ganhou tal projeção, como analista de celebridades do meio artístico, que se elegeu deputado federal pelo PDT em 1989. Chegou em Brasília sob a expectativa de que movimentaria a vida social na Corte. Não movimentou. Diluiu-se entre os 513 deputados e não chegou a ser notado pela cidade.

“Todos adquiriram a dicção palaciana, o hábito de contemplar o país à distância. E não foi, afinal, para isso mesmo que a capital se transferiu do litoral carioca para a solidão do Planalto?”

Idem o cantor Agnaldo Timóteo, que aqui chegou nos anos 80, debaixo de grande alarido. Uma cidade que ignora celebridades e que convive com o poder como se não existisse – eis aí Brasília. Ou pelo menos uma de suas facetas.

O que a torna singular, diferente de outras capitais – contemporâneas e do passado – é o fato de, aqui, o Estado ter precedido a sociedade. Quem para cá primeiro migrou foi a burocracia do serviço público. A Brasília oficial. Antes de haver povo, havia os ministérios, o Palácio do Planalto, o Judiciário, o Congresso. A sociedade organizou-se depois, aos poucos, em torno dela, e em função dela. E fora dela.

Por isso, fala-se habitualmente em duas Brasílias: a institucional e a real. A institucional surgiu de um decreto, projetou-se numa maquete de arquiteto, povoou-se por meio de transferências compulsórias. Uma sociedade fabricada pelo Diário Oficial.

Seus primeiros habitantes a amaldiçoaram, nostálgicos da Velhacap litorânea. A real aqui se instalou na expectativa de que a vizinhança do poder abriria horizontes de prosperidade profissional, herança cultural ibérica, de um país que nasceu e permanece centralista e que adotou o federalismo apenas no papel.

Seu fundador, Juscelino Kubitschek, não apenas não residiu nela, como foi, quatro anos depois de sua inauguração, proibido de nela pisar. E aí começam (e não terminam) os paradoxos biográficos da cidade, projetada na prancheta de um comunista, Oscar Niemeyer (que também nela jamais residiu), inaugurada em plena era desenvolvimentista, em que o sonho capitalista embalava o país, e que se consolidaria no curso de uma ditadura militar.

O governo Jânio Quadros, o primeiro a nela tomar posse, durou apenas seis meses. E cogitou até de revogá-la, torná-la uma cidade de eventos, um gigantesco centro de convenções a ser doado à ONU. Jânio abominou Brasília, sobretudo porque esta mostrou-se indiferente à sua renúncia. Imaginou que o povo o reconduziria nos braços ao poder, como o fizera com Fidel Castro, em Cuba, mas esqueceu-se de que ainda não havia povo em Brasília.

A seguir, veio João Goulart, que já a conhecia, pois fora vice de Juscelino e participara, ainda que como espectador, de sua construção e inauguração. A curta, mas intensa, Era Jango foi a do sonho reformista, em que o ideal socialista, que inspirou Oscar Niemeyer, contagiou parte da elite intelectual do país. Não, porém, ao ponto de alterar a personalidade esfíngica de Brasília: distante, majestática, silenciosa. Ideal para os conchavos do poder.

A consolidação da cidade como capital, status que até 1970 dividia com o Rio de Janeiro, que abrigava ainda parte substantiva da estrutura administrativa federal, deu-se com o regime militar. Mais precisamente, com o seu mais duro governo, o de Emílio Garrastazu Médici. Castello Branco e Costa e Silva, que o precederam no comando do regime, governaram mais do Rio do que daqui.

        “O poder habita a ponte aérea.”

Os atos institucionais, inclusive o AI-5, de dezembro de 1968, anunciados em ambiente de sinistra solenidade, tiveram como cenário o velho Palácio das Laranjeiras, no Rio.

Foi Médici quem transferiu para a Novacap as estruturas residuais dos ministérios, que ainda estavam na Velhacap. E se estabeleceu em caráter definitivo no Planalto. Só ia ao Rio para assistir aos jogos do Flamengo e da Seleção, com um radinho de pilha colado ao ouvido. Talvez tenha percebido que o isolamento geográfico da nova capital fosse mais propício ao distanciamento popular que seu estilo de governo requeria. E era.

O formato da cidade – planejada nos mínimos detalhes, seccionada em setores (Setor Comercial, Setor de Diversões, Setor de Oficinas, Setor de Clubes, Setor Hospitalar, Superquadras residenciais), rodeada por distantes cidades-satélites –, mais afeita aos automóveis que aos pedestres, induz à segregação social.

Brasília, ao contrário do Rio de Janeiro, não sugere convívio e mistura de classes. Isola-as em seus respectivos hemisférios.

No Rio, Câmara, Senado e ministérios ficavam no Centro da cidade, cercados por escritórios, jornais, comércio varejista variado, bares, restaurantes, cinemas, casas noturnas e teatros. A Cinelândia, complexo de lazer e de serviços, misturava parlamentares e altos burocratas com a massa anônima da população.

“Uma cidade que ignora celebridades e que convive com o poder como se não existisse – eis aí Brasília. Ou pelo menos uma de suas facetas.”

O restaurante popular era vizinho ao sofisticado. E havia bares que reuniam indistintamente povo e elite, numa catarse etílica comum. No velho Amarelinho, misturavam-se sambistas, deputados, prostitutas, empresários, boêmios e desocupados. O poder podia não cuidar do povo – e raramente cuidava -, mas o freqüentava. E vice-versa. Ao transeunte que quisesse dar uma espiada nos debates do Palácio Tiradentes (Câmara dos Deputados) ou Palácio Monroe (Senado), bastava subir as amplas escadarias e entrar.

Ninguém na portaria iria barrá-lo ou pedir-lhe documentos, crachás ou coisas que tais. Quando se sabia que um bom orador – Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Bilac Pinto – iria ocupar a tribuna, apreciá-lo constituía quase uma opção de lazer.

Os livros de Machado de Assis e Lima Barreto relatam múltiplas situações análogas, num passado ainda mais remoto. Havia mais intimidade física entre povo e políticos, o que não quer dizer que se refletisse necessariamente em medidas populares de governo. Mas o convívio, sem dúvida, era maior.

Em O Velho Senado, Machado de Assis relata um caso impensável em Brasília. Dois senadores – Visconde de Ouro Preto e Cansanção de Sinimbu – saíam a pé (outra impossibilidade em Brasília) da Câmara dos Deputados para o Ministério da Agricultura. O gabinete do governo parlamentarista que integravam estava sob forte desgaste popular. Ao saírem, depararam-se com uma multidão de transeuntes que passou a vaiá-los e xingá-los.

Cada qual reagiu a seu modo, segundo Machado: “Ouro Preto fitava-a (à multidão) com a cabeça erguida e certo gesto de repto; Sinimbu parecia apenas mostrar ao colega um trecho do muro, indiferente”. A indiferença, no entanto, era apenas aparente. Ambos constatavam in loco a temperatura da contrariedade popular. E isso se refletia de alguma forma no seu comportamento político.

Quando Washington Luiz, em 1930, foi apeado do poder pela revolução, conta-se que, ao embarcar no carro que o levaria ao cais do porto – e de lá ao exílio -, deparou-se também com uma multidão hostil. Teria então instruído o motorista, quanto à velocidade que deveria imprimir ao carro: “Nem tão veloz, que pareça fuga; nem tão devagar, que pareça provocação”.

“No velho Amarelinho, misturavam-se sambistas, deputados, prostitutas, empresários, boêmios e desocupados. O poder podia não cuidar do povo – e raramente cuidava -, mas o frequentava.”

O político, na Velhacap, aprendia a lidar com multidões. Em Brasília, não há multidões. Senado e Câmara jamais são trajetos casuais, que convidem o passante a entrar.

O Palácio do Congresso fica isolado do Centro, sem nada a rodeá-lo, a não ser os vizinhos Palácios do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, na famosa e sempre vazia Praça dos Três Poderes (que, segundo as más línguas, um dia ainda será inaugurada).

Para assistir a uma sessão na Câmara ou Senado em Brasília, em que já não pontificam luminares da oratória, é preciso cumprir um desagradável rito, que começa na portaria, com a apresentação de documentos, a obtenção de um crachá e a exposição a uma sucessão de máquinas detectoras de metais, postadas a cada esquina dos numerosos salões do Palácio. Isso, claro, se o indigitado visitante obtiver a confiança do segurança inicial, que pode não gostar de sua aparência e barrá-lo.

É preciso estar vestido em trajes adequados (até há poucos anos, mulher não podia entrar de calça comprida e homens só de gravata) para apreciar os representantes do povo. Acesso pessoal, nem pensar, a não ser, óbvio, que o espectador integre alguma comitiva sindical ou outro grupo de pressão com prestígio, capaz de sensibilizar os políticos. Não há espaço para individualidades.

“O político, na Velhacap, aprendia a lidar com multidões. Em Brasília, não há multidões. Senado e Câmara jamais são trajetos casuais, que convidem o passante a entrar.”

Os gabinetes parlamentares, que inexistiam no Rio, onde deputados e senadores trabalhavam em salas compartilhadas (quem queria privacidade e maior conforto alugava ou comprava seu próprio escritório em prédios comerciais da cidade), são inacessíveis.

Em Brasília, nas antessalas dos gabinetes parlamentares, há um batalhão de assessores e recepcionistas a exercer barreira inexpugnável. “O senhor tem audiência marcada? Então, sinto muito, o deputado está com agenda lotada”. É a resposta de praxe.

O político em Brasília sente-se protegido – e isolado. Sai de seu apartamento, casa ou hotel (há essa opção residencial, paga pelo erário) para o automóvel, em regra dirigido por um motorista profissional (raramente se vê ministro ou parlamentar ao volante) e deste para o local de trabalho. Na volta, se não fizer ponto em um restaurante sofisticado, em que o povo estará representado tão-somente nos garçons, repetirá o trajeto, sem se deparar com um único e escasso transeunte. Falta uma Cinelândia em Brasília.

Por essa razão, o parlamentar alega a necessidade de visitas constantes às suas bases eleitorais, o que ensejou um hábito (e um direito), também inexistente no Rio de Janeiro: as viagens semanais a seu estado – pagas, claro, com verba pública.

Esse hábito, por sua vez, gerou abusos, conforme revelou o escândalo das passagens aéreas, denunciado em 2009, em que se constatou que todos, sem exceção, com maior ou menor parcimônia, estendiam a benesse a parentes e amigos, incluindo viagens de turismo ao exterior, onde não há base eleitoral alguma.

Os quesitos empreguismo e nepotismo não foram obviamente inventados em Brasília. Existem desde que o mundo é mundo. E, entre nós, desde a famosa Carta de Pero Vaz Caminha – o documento fundador do país -, em que o missivista encerra a manifestação da descoberta do Brasil ao rei de Portugal com um pedido de transferência do sobrinho, que estava na África, para a corte em Lisboa. A sem-cerimônia mantém-se até hoje.

“Falta uma Cinelândia em Brasília.”

Ao longo do regime militar, o poder movia-se em torno de poucos lugares. Poucos eram os hotéis, poucos os restaurantes. Na verdade, dois. A oposição freqüentava o Tarantella (hoje, Piantella) e os governistas faziam ponto no Gaf. A imprensa freqüentava os dois, em busca de notícias, matéria escassa em regimes autoritários.

Era ali, entre copos e garfadas, que o destino do país era traçado e retraçado. Neles, o poder afrouxava a gravata ¾ e os costumes. No Gaf, o então czar da economia brasileira, ministro Delfim Netto, era habitué. Lobistas e puxa-sacos de plantão não descuidavam do mapeamento etílico-gastronômico. Ulysses Guimarães, o comandante da oposição, fazia ponto no Tarantella-Piantella. Sua mesa exclusiva está lá até hoje, como relíquia histórica, acessível ao uso dos clientes.

Um cum­primento, ainda que breve e desinteressado, entre picanhas sangrentas e taças de vinho branco, abria horizontes vastíssimos na imaginação dos que ali iam atrás das benesses do poder. Mudaram o regime, os personagens, surgiram novos partidos, a democracia inundou a cidade de lobistas e aventureiros; há dezenas de novos hotéis e restaurantes da moda; os Lagos Sul e Norte possuem dezenas e dezenas de novas mansões; a cidade está mais populosa. Mas o rito, os códigos e a geografia do poder continuam os mesmos. Não mudaram.

Brasília já conviveu com a República do Maranhão (José Sarney), a das Alagoas (Fernando Collor), a de Juiz de Fora (Itamar Franco), a da USP (Fernando Henrique) e a do ABC (Lula). Todas se brasilianizaram rapidamente, adaptando-se à coreografia vigente.

Rapapés a ministros, parlamentares e tecnocratas de prestígio continuam a fazer parte do elenco de gestos indispensáveis aos que pretendem triunfar. Empresários e lobistas continuam a mofar nas antessalas de autoridades, para, muitas vezes, serem atendidos em pé, por segundos. Não importa, desde que o nome do abnegado personagem passe a ser do conhecimento do figurão em pauta.

— O grau de importância do empresário no Brasil está na razão direta das horas-bunda nas antessalas do poder — ensina uma máxima empresarial do capitalismo brasileiro contemporâneo, a denunciar o seu grau de dependência e cumplicidade com o Estado.

Outra singularidade é que o distanciamento físico que o poder impõe em Brasília contamina até os funcionários mais modestos, lotados nos palácios principais da cidade. O falecido jornalista Carlos Castello Branco dizia que um dos desafios dos neófitos na cidade era decifrar quem de fato é importante. “De longe, parece que todo mundo é”, dizia ele. Porteiros, aspones, secretárias, motoristas, seguranças, todos exibem a mesma pose hierática, que faz com que o visitante desavisado se sinta diante de uma alta autoridade.

“A tecnologia equipou a polícia para auscultar os recintos mais recônditos do poder. Semeou paranoias. Alguns contribuintes passaram a cultivar a esperança de que o poder, enfim, se tornaria honesto – senão por opção moral, ao menos por imperativo tecnológico. A essência, porém, não mudou.”

Nem tudo, porém, está perdido. Com a democracia, a liberdade de imprensa começou a fuçar os guetos e subterrâneos do poder. O advento da internet, com seus blogs e sites de relacionamentos, pôs em cena a informação on line. Os políticos deixaram de ter o monopólio de gerar as pautas de jornal. Passaram a ser pautados por eles. A vigilância tornou-se implacável.

As sessões da Câmara e do Senado passaram a ser transmitidas ao vivo, ocasionando outro fenômeno, impensável na Velhacap: os discursos para as câmeras e holofotes. Os políticos como atores; as tribunas como palco. A tecnologia virtualizou a cidade, pondo-a em rede. Virtual, porém, nada tem a ver com virtude, bem imaterial que o poder está longe de cultivar.

A tecnologia equipou a polícia para auscultar os recintos mais recônditos do poder. Semeou paranoias. Alguns contribuintes passaram a cultivar a esperança de que o poder, enfim, se tornaria honesto – senão por opção moral, ao menos por imperativo tecnológico. A essência, porém, não mudou.

Brasília continua – e continuará sendo – cidade singular. Nasceu de um decreto, mas também de um sonho. Foi sonhada em 1883 por um padre italiano da ordem de São Francisco de Sales, dom Bosco, que a viu como sede de uma nova civilização, próspera e fundada na moral cristã. JK explorou o mito, que já havia impressionado outro presidente do passado, Epitácio Pessoa, o primeiro a demarcar-lhe os limites, em 1922.

Essa mística atraiu para cá visionários e seitas de diversas partes do mundo, que aguardam em estado de contemplação a aurora do apocalipse, espetáculo que os políticos não se cansam de lhes oferecer – a eles e a todos nós.

E é dessa tríplice Brasília – a real, a mística e a institucional -, e agora já cinqüentenária, que aguardamos a concretização da sempre adiada profecia de Stephan Zweig: “Brasil, País do futuro”.

 

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