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O Filósofo E O Surrado Vilão

O filósofo e o surrado vilão

Trópicos Utópicos, o livro de Eduardo Gianetti da Fonseca editado pela Companhia das Letras, traz em seus vários recortes de textos um precioso diálogo nomeado como “Rorschach ideológico”. Pode ser lido como um resumo dos embates políticos travados entre nós. Ou como uma tentativa frustrada de romper o maniqueísmo visceral que se instalou no cenário brasileiro. É assim:

A – Dentro do capitalismo não tem saída, vamos afundar na barbárie.

B – Mas o que exatamente é isso que você chama de “capitalismo”?

A – Ora, meu caro, não banque o cínico, todos sabem exatamente do que se trata!

B – Desculpe, mas estou sendo sincero. Eu nunca sei ao certo o que vai pela cabeça de alguém quando acusa “o capitalismo” disso ou daquilo; quando você diz capitalismo, está falando do capitalismo de Marx ou Weber, Hayek ou Zizek?

A – Falo do que está bem aí, diante do meu e do seu nariz: da ganância desenfreada que tomou conta do mundo, do poder nefasto da grana, dos governos corruptos dominados pelos bancos e empreiteiras, do consumismo insano que nos é enfiado todo o tempo goela abaixo, desse sistema injusto e excludente comandado pelo grande capital globalizado…

B – Ah, acho que começo a entender. Você está puto com tudo isso que aí está e então resolveu criar o seu próprio conceito de capitalismo; ele é o demônio, ele é a raiz de todos os males…

A – Mas, afinal, de que lado você está?! Acho que no fundo você só quer mesmo é confundir as coisas; tergiversar para deixar tudo na mesma, naturalizar o status quo, desviar a atenção do verdadeiro inimigo.

B – Só falta agora você me xingar de neoliberal! Pois saiba que talvez estejamos mais próximos do que você imagina. Não sou menos inconformado que você, só não consigo é ver em que acusar “o capitalismo”, “o sistema” ou o nome que você quiser dar ao monstro vai nos ajudar um milímetro a sair do buraco ou entender o que há de errado no mundo. E se “ele” não passa de um borrão conceitual fabulado por filósofos teutônicos, onde cada um mete o que lhe convém; e se “ele”, como o flogisto, o santo graal ou o unicórnio, nunca tiver existido?

A – Mas aonde afinal você quer chegar?

B – Proponho uma medida profilática: abandone o cacoete, aposente o surrado vilão, diga tudo que tem a dizer sobre o que vai mal no mundo, não altere uma vírgula, mas faça-o sem invocar essa muleta preguiçosa da crítica, sem recorrer a essa invenção prussiana de mil gavetas e mil espelhos chamada “capitalismo”: aceita o desafio?

A – Pois faça você isso! Castrar tola e inutilmente o meu discurso, nem pensar!

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