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	<title>Tema Editorial</title>
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	<description>Site da Editora Tema Editorial - Brasília DF - Brasil</description>
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		<title>Inventora de personagens e enredos</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 03:47:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem espera encontrar na atriz Denise  Fraga os traços mais evidentes que a tornaram famosa em papéis  humorísticos, na televisão e no teatro, pode desconcertar-se no primeiro  olhar.
A atriz sabe ser reservada e discreta,  mesmo nos momentos em que partilha seu entusiasmo pela carreira ou  anima-se com a menção aos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_190" class="wp-caption alignleft" style="width: 244px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/denisefraga02-ze-paulo-ca.jpg"><img class="size-full wp-image-190" title="denisefraga02---ze-paulo-ca" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/denisefraga02-ze-paulo-ca.jpg" alt="" width="234" height="282" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Sou uma atriz que se lança muito&quot; <em>Foto: Zé Paulo Cardeal/TV Globo</em></p></div>
<p>Quem espera encontrar na atriz Denise  Fraga os traços mais evidentes que a tornaram famosa em papéis  humorísticos, na televisão e no teatro, pode desconcertar-se no primeiro  olhar.</p>
<p>A atriz sabe ser reservada e discreta,  mesmo nos momentos em que partilha seu entusiasmo pela carreira ou  anima-se com a menção aos projetos que idealiza e executa em parceria  com o marido, o diretor Luiz Villaça.</p>
<p>Como um cientista que analisa seu objeto  de estudo, ela se dispõe a dissecar com riqueza de detalhes a tarefa de  representar e inventar personagens. Pode estender-se em minúcias sobre  as características da comédia, do drama, do teatro, do cinema.</p>
<p>É capaz ainda de completar com trechos  inteiros de peças que já encenou um raciocínio sobre a magia do teatro e  analisar de maneira aguda as tendências no estilo de direção de atores.  Seu poder de observação é imenso. Sua disposição para criar também,  como se pode constatar na longa entrevista que concedeu, em São Paulo,  no escritório de sua produtora.</p>
<p>Denise é uma carioca &#8211; do subúrbio de  Lins de Vasconcelos, como faz questão de enfatizar &#8211; que se considera um  caso bem-sucedido de adaptação aos ares paulistanos. É lá que cria os  dois filhos e alimenta uma vida impregnada de arte e delicadeza. (<strong>Beth  Cataldo</strong>)</p>
<blockquote><p>&#8220;O palco é o grande exercício do erro.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>Pergunta &#8211; No passado, as  mulheres sequer podiam representar no palco, cabendo aos homens atuar  travestidos em papéis femininos. No início do século XX, as atrizes eram  estigmatizadas como pessoas de má reputação. Agora que vivemos na era  das celebridades, o que significa ser atriz?</strong><br />
Resposta &#8211; Acho  que isso mudou mesmo, e não sei em que geração exatamente. Mas eu  briguei com a minha família para ser atriz &#8211; ainda. Não exatamente por  uma questão de má reputação ou porque fosse considerada uma turma de  marginais, como acho que acontecia antigamente. Mas porque era uma  profissão que não daria futuro a ninguém. `Ah, a Denise lá e os teatros  dela´,  diziam. Na verdade, a minha mãe me deu muita força. Mas a minha  família em geral e o meu pai só me chamaram mesmo de atriz depois que eu  fiz televisão. Meu pai falava assim para mim `ah, que legal, minha  filha, mas você não quer fazer um concurso para o Banco do Brasil?  Aquele teatro ali, até você&#8230;´ Acho que tem isso, infelizmente, hoje. A  televisão é uma indústria muito forte, que invade a casa das pessoas e  legitima muito um ator. Quando você fala que é atriz, perguntam que  novela você faz. Não devem estar indo muito a teatro, não é?</p>
<p><strong>P &#8211; Embora seja legítimo também  ser uma atriz mais de televisão ou de cinema.</strong><br />
R &#8211; Sim, super  legítimo. O que digo é que uma atriz só de teatro ou só de cinema, para  o público em geral, tem que ficar explicando muito o que faz se não  aparece na televisão. Mas você falou da questão das celebridades.. Muita  gente, os jovens que querem ser atores, chega para mim e pergunta como é  que faz, qual o caminho. E eu acho muito louco porque a profissão mudou  muito com essa história das celebridades. Tenho até a impressão que  muita gente deve se tornar ator e achar isso muito chato. Porque a  profissão exige repetir, tem que ler, ensaiar, decorar, que é uma coisa  chata de fazer. E você tem que ficar bordando, tem de ter uma coisa de  uma minúcia, lendo aquele texto várias vezes &#8211; aqui eu vou falar assim,  não, vou falar assim, vou dar a pausa aqui.</p>
<p><strong>P- É um exercício necessário?</strong><br />
R-  É preciso esse exercício de concentração, se fechar dentro de um  quarto, ficar falando sozinha. Acho que, com essa história de  celebridade, muita gente cai hoje dentro da profissão desavisado,  completamente desavisado. Eu sinto que a profissão está mudando. Hoje  tem tribos de atores, há vários atores que nunca pisaram num palco. E  deixam de ser atores por causa disso? Não, são atores. A única pena é  porque o palco é o grande exercício do erro. As pessoas falam, mas por  que essa coisa toda com o teatro? Acho que o teatro te melhora como ator  porque é a sua academia, é um músculo exercitado. Em primeiro lugar,  porque você ensaia dois meses, digamos. E o ensaio é o único lugar em  que você pode errar. Tanto no cinema, em que se ensaia um pouco mais do  que na TV, como na própria televisão, você tem que definir rapidamente  como a sua cena vai ser.</p>
<p><strong><br />
P- Ou seja, o teatro te dá  mais recursos?</strong><br />
R- No teatro, eu digo, você tem mais  alternativas, vôos, pode alternar &#8211; para um lado, para o outro, jogo  aqui&#8230; Hoje eu viro para o meu diretor e falo assim `você deixa hoje eu  fazer, sei lá, com sotaque japonês?´ Pode parecer uma idéia maluca, ele  pode falar não, eu falo ‘deixa, por favor, só hoje´. Faço tudo com  sotaque japonês, não serve absolutamente para nada, menos naquela cena,  em que aquele sotaque japonês me remeteu a uma rapidez que eu deveria  ter naquela cena. Então, aquele sotaque japonês me salvou a concepção  daquela cena. Eu percebi o ritmo que eu poderia ter através dessa  investida. É um tipo de coisa assim, eu dei um exemplo meio tosco. Você  tem mais ousadia de ir para um lado e pro  outro. O teatro acaba te  dando mais recursos, por você buscar, por você errar. É um jogo de erro e  acerto, de combinação entre a sua idéia, a idéia do diretor e o que  você pode oferecer para ele. Ele pode falar um dia ´fique parada, não  quero que você olhe pro lado`. E aquilo te prende, te engessa. No dia  seguinte você vai descobrindo aos poucos como aquilo pode ficar orgânico  para você, como pode ser  melhor de uma certa maneira &#8211; não era a tua  idéia, não era a idéia dele, é uma terceira via, um terceiro caminho.  Isso é a grande coisa do teatro.</p>
<p><strong>P &#8211; Por isso o grande fascínio  que o teatro exerce sobre os atores?</strong><br />
R &#8211; Quando a gente fala  que o teatro é o lugar do ator, o lugar do laboratório, é exatamente  isso, a possibilidade de errar. E aí vem a temporada. Quando vem a  temporada, você tem o amanhã com aquela mesma partitura. Você fez hoje e  naquela hora ali você fala assim ‘ainda não achei, isso aqui não está  bom`. Você sabe que não está orgânico para você,  a cena não está  funcionando. Você tem que dar um abraço no outro ator e aquele abraço  não encaixa. Então, são coisas que você vai achando. Até um dia em que  você acha aquilo. Aí fica com aquilo um mês, ali na ponta da agulha.  Perde de novo! Então, o teatro é aquele cara do circo que segura os  pratinhos e você vai rodando aqui, o outro começa a cair lá. Eu adoro  ficar em cartaz no teatro. Quando dá aquele terceiro sinal, para mim, às  vezes,  é assim ‘vamos para o campo dos sonhos, vamos para aquele  lugar`. O espetáculo não pode parar. Isso é um trato básico. Não pára.  Dá um medo, um medo bom. É um jogo, um jogo de vôlei. Um atleta pulando  do alto da piscina, com aquele salto ornamental. O que ele vai fazer ali  no meio, vai ser o que for. A princípio, não vai parar. Só uma coisa  muito grave faz o espetáculo parar.</p>
<p><strong>P &#8211; E o que acontece com quem  está em cima do palco? </strong><br />
R &#8211; Às vezes, estou em cena e vendo  os outros atores&#8230; No ano passado, eu fiz um Shakespeare, o <em>Ricardo  II </em>e, em alguns momentos, eu olhava em cena e ouvia as pessoas  falando daquele jeito (eleva a voz). Não era nem muito impostada a peça,  porque a gente fez num tom bastante coloquial. A adaptação do Jô Soares  para a peça era muito boa. Mas no teatro você tem aquela impostação  porque você fala para todo mundo ouvir. Eu fui olhando, e foi me dando  uma sensação assim, nossa, que louco, que profissão absurda é essa, a  gente aqui com essas roupas, eles aqui fingindo que acreditam, nós  fingindo que acreditamos. E assim é.</p>
<p><strong>P &#8211; É uma invenção?</strong><br />
R  &#8211; E ainda muito primitiva, diante de tantos meios audiovisuais, diante  de tanta tecnologia, de cabos por onde as coisas aparecem em formas. De  repente, a gente vai lá, sobe uma escadinha, entra num lugar, ainda é  muito simples. O Flávio Rangel já dizia que o teatro é o moribundo mais  antigo de que se tem notícia. Ele está morrendo há muito tempo. Um  diretor italiano dizia que o público ainda continua indo ao teatro na  grande esperança de ver um ator morrer em cena. Acho que é isso mesmo.  Não é que você queira que o ator morra. Mas você sabe que o que está  acontecendo ali está realmente acontecendo. É o aqui e agora que faz as  pessoas irem ao teatro.</p>
<div id="attachment_188" class="wp-caption alignleft" style="width: 264px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/denisefraga03-divulgacao.jpg"><img class="size-full wp-image-188" title="denisefraga03---divulgacao" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/denisefraga03-divulgacao.jpg" alt="" width="254" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;O artista é o grande espelho do mundo. É aquele que faz o mundo se ver, olhar para sua vida, refletir, avaliar.&quot;  <em>Foto: Divulgação</em></p></div>
<p><strong>P- Representar é um dom?</strong><br />
R  &#8211; É o dom de observar a vida enquanto ela passa. Tem pessoas que se  inserem de tal maneira na vida e no cotidiano que não têm a capacidade  de se olhar e ver que aquilo é uma vida, uma passagem. E aí podemos  entrar num campo mais místico. Quando eu era pequena, a minha mãe estava  chorando no sofá e eu segurei a mão dela, eu estava condoída com a dor  dela, era um problema de família, uma doença. Eu também estava muito  triste, mas olhei para ela e pensei assim: ‘nossa, como ela chora bem,  que bonito`. E eu não era atriz, nem tinha essa aspiração! Eu tinha uns  dez, doze anos. Na verdade, eu me lembro que achei bonito ela chorar.  Era uma cena muito bonita. Artista, de uma certa maneira, tem isso, tem  essa percepção, ‘olha isso que eu estou vivendo`, enquanto está vivendo.</p>
<p><strong>P- Ser atriz é a sua maneira de  estar no mundo?</strong><br />
R &#8211; Sem dúvida. Mais do que isso, são  enviados (risos). Eu exagerei agora! Mas acho que são mesmo pessoas  escolhidas para ser espelho do mundo. O artista é o grande espelho do  mundo. É aquele que faz o mundo se ver, faz o mundo olhar para sua vida,  refletir, avaliar&#8230; A tal da catarse no teatro é ‘um viver com`,  é  ‘um estar com`, uma comunhão. O artista é um ser necessário em qualquer  sociedade. Tanto que as sociedades mais primitivas comem, bebem, dormem,  se reproduzem e fazem arte. É pão e circo. Desde a Idade da Pedra, você  vê lá as danças, os desenhos rupestres, as manifestações artísticas, o  que é essencial ao humano, não pode existir o ser humano sem isso.</p>
<p><strong>P &#8211; Dentro da linha da pesquisa  que realizamos, passamos pelo Teatro de Revista, as comédias cariocas,  chegamos às chanchadas. Você se considera um pouco herdeira dessa  linhagem?</strong><br />
R- Costumo dizer que eu, Marisa Orth, Débora  Bloch, Andréa Beltrão um pouco, Regina Casé muito, somos todas filhas de  Marília. Acho que nós, de alguma maneira, herdamos uma maneira de  representar de que a Marília Pêra foi meio a mentora. Só que Marília se  diz filha de Dulcina. Acho que a gente vem por aí, meio comédia e drama.  Essa comédia que não é só a chanchada, que é essa comédia dramática,  que é essa atriz que fica nesse limiar. Tem uma coisa que vai se  passando, as gerações vão herdando sem querer, às vezes, sem observar.  Sem ter nunca ter visto Marília, uma pessoa pode representar como ela. É  uma tendência de uma época. Uma coisa que me amedronta muito&#8230;não é  que me amedronte&#8230; É que eu sou muito fora disso, não é que eu seja  fora&#8230; Fala, Denise! (risos) É que acho que agora tem um culto ao  menos. Tudo é menos. Na televisão, é menos. No cinema, é menos. Quanto  menos representar&#8230; Quando só a cara estiver ali, sem nada, parece que é  melhor.</p>
<p><strong>P &#8211; Isso frustra um pouco?</strong><br />
R-  Acho um desperdício, na verdade. Entendo que quando vou fazer cinema  preciso fazer menos, num tom menor; televisão, num tom menor. Mas isso  está ficando de uma maneira que empobrece. A gente, às vezes, quer ver  um ator se rasgando, num momento de emoção. Várias coisas, às vezes, são  muito fortes quando ditas assim, sei lá, estou num close e digo (abaixa  o tom de voz) ‘eu nunca mais vou agüentar uma morte na minha vida`. Tem  um peso, isso existe como força. Mas isso não pode ser lei, porque  dependendo do personagem eu diria (eleva o tom de voz) ‘eu nunca mais  vou agüentar uma morte na minha vida!` Depende do personagem, depende da  história que você está contando. Então, acho que se está economizando  muito o ator que se tem na mão. E se isso continua, acho que você cria &#8211;  como eu falei da Marília &#8211; uma nova tendência de atores mais gélidos.</p>
<p><strong>P &#8211; Inexpressivos, talvez.</strong><br />
R  &#8211; Dependendo da hora, isso tem uma expressão danada. Um <em>close,</em> imóvel, às vezes, tem muito mais expressão do que um esgar. Mas nós,  brasileiros, temos uma tradição, uma cadência, um jogo de cintura, não é  uma coisa estática.</p>
<p><strong>P &#8211; Isso vale mesmo para São  Paulo, onde as pessoas são mais contidas em relação ao Rio ou ao  Nordeste?</strong><br />
R- Mesmo em São Paulo, que tem comediantes  fantásticos, que vão pras cabeças, que vão para os limites. Não que eu  ache que todo trabalho&#8230; Senão, fica parecendo que eu quero puxar a  brasa para a minha sardinha de comediante, não é isso. Sempre vejo na  TV, no cinema, sinto um ator falando assim (abaixa o tom de voz, quase  inaudível) &#8211; nada, não faz nada. Não é sempre, mas tem se pedido  muito  isso. Às vezes, é ótimo, mas não pode ser uma lei, porque vira um  desperdício de atores.</p>
<p><strong>P- Isso não tem a ver com o  momento nosso, como sociedade, de também estarmos sendo obrigados a nos  tornar mais contidos de alguma maneira?</strong><br />
R &#8211; Sem dúvida.  Porque nós, de alguma maneira, somos convidados todos os dias a não nos  comprometermos.</p>
<p><strong>P- O fato de vivermos em  sociedades mais violentas, que nos obrigam a nos proteger por trás de  portões, grades &#8230;.</strong><br />
R &#8211; É tudo, também na relação de  trabalho. Na sala de uma empresa, todas aquelas baias, as pessoas estão  atrás de sua baiazinha e mandam um e-mail para alguém que está ao seu  lado. Vira aquele local silencioso. Acho que o mundo, de uma certa  maneira, se profissionalizou, ficou menos espontâneo. Somos convidados,  dia após dia, a não ser espontâneos, a ser reservado. Isso, claro, pode  reverberar na interpretação. Porque um diretor que está te dirigindo,  com medo daquela opção que você está dando para ele de cair de joelhos  na cena da morte de seu filho no filme, ele se segura e fala  ‘não, só  fica aí, hirta`. Por quê? Porque cair de joelho é uma escolha drástica.  Ficar hirta pode significar isso ou aquilo, ou aquilo outro ou aquilo  outro. Então, fico com essa que eu tenho mais opções, menos chance de  erro. Só que, vamos combinar, o mundo vai ficar mais sem graça. A longo  prazo, cria uma sociedade mais sem graça, menos comprometida com o  outro, com mais medo de errar. Impossível errar, parece que não se pode  mais errar, o erro não faz parte. Portanto, mais difícil de viver e mais  sem graça, menos divertido.</p>
<p><strong>P- Gostaria de falar um pouco  sobre o teatro de inspiração política, dos anos 60 e 70. Você acha que  isso deixou alguma marca na dramaturgia brasileira ou é alguma coisa  muito datada?</strong><br />
R- Na minissérie <em>Queridos Amigos,</em> tive contato com as questões políticas daquela época. É uma parte da  nossa história, vergonhosamente inesquecível. É uma loucura que a gente  tenha vivido isso. É interessante também observar o comprometimento que  as pessoas tinham com uma causa, com uma idéia. E principalmente uma fé  de que algo estava por vir, uma época melhor viria. Isso se perdeu. Essa  esperança de que vai chegar uma hora. E isso ficava muito à mercê do  dia em que a esquerda estivesse no poder. Na hora em que a esquerda  estivesse no poder, tudo estaria resolvido. E não foi assim, não foi bem  assim. O ser humano é muito mais complicado. Como diz o Juca de  Oliveira &#8211; adoro ele, é meu parceiro &#8211; o homem é um projeto que não deu  certo.</p>
<div id="attachment_189" class="wp-caption alignleft" style="width: 199px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/denisefraga01-ze-paulo-ca.jpg"><img class="size-full wp-image-189" title="denisefraga01---ze-paulo-ca" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/denisefraga01-ze-paulo-ca.jpg" alt="" width="189" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot; A gente tem que olhar para o outro. É urgente que a gente se comprometa mais, se relacione mais. Como um exercício... As pessoas estão com muito medo de se relacionar.&quot;  <em>Foto: Zé Paulo Cardeal/TV Globo</em></p></div>
<p><strong>P- É o terreno das relações  humanas que é mais complexo, não?</strong><br />
R &#8211; Sem nenhuma tentativa  aqui de fazer um discurso cristão, a gente tem que olhar para o outro. É  urgente que a gente se comprometa mais, que se relacione mais. Como um  exercício, não estou propondo prazer, estou propondo exercício. Esse  exercício, eu acredito, dará prazer. Mas as pessoas não se casam mais,  você vai ao supermercado e aquelas fatias de pão, quatro fatias de pão,  temos isso. Vi isso na Europa anos atrás e achei um absurdo. As pessoas  estão preferindo morar sozinhas porque, claro, casamento dá trabalho. As  pessoas optam por não ter filhos, optam por não se casar. Outro dia,  uma amiga minha disse que estava na faculdade e que tinha de fazer um  trabalho em grupo. Olha o trabalho que dá fazer um estudo em grupo, ter  que organizar, ir à casa do outro, o outro ir à sua casa, coisa mais  antiga! Hoje, todo mundo se fala pela internet. E ela contou que  propôs  não fazer o trabalho em grupo, cada um fazia uma parte e depois reunia  tudo&#8230; Porque as pessoas estão com muito medo de se relacionar.</p>
<p><strong>P &#8211; Abrindo a nossa conversa  para a sua personagem em </strong><em><strong>Queridos Amigos</strong></em><strong>,  a Bia, como é que você transitou para um papel tão dramático? Embora  você já tenha feito tanta coisa em teatro, em televisão você é muito  conhecida pela comédia, pela abordagem bem-humorada, como no </strong><em><strong>Retrato  Falado</strong></em><strong>. De repente, o papel de uma militante  política, que foi torturada, com toda aquela carga&#8230;</strong><br />
R &#8211;  Acho que o público não me conhecia em outras coisas. Mas durante todo  esse tempo venho fazendo coisas mais dramáticas. <em>Por trás do pano, </em> que é o primeiro longa que a gente fez &#8211; eu e o Luís (Villaça) -, o<em> Cristina quer casar</em>. Tinha essa coisa da comédia cotidiana,  mas  era um tom dramático, uma pessoa vivendo aquela situação ali. Agora, a  Bia foi um papel extremamente dramático. Eu tinha passado antes pelo <em>Ricardo  III</em>, em que eu fazia uma tragédia, uma mulher que perdia tudo &#8211; o  poder, os filhos, o marido. Hoje, gostaria de ter feito a Bia antes da  Elizabeth, de <em>Ricardo III</em>. Porque faria com muito mais  desenvoltura. Para uma comediante, e era um texto clássico, é muito  difícil você dizer, por exemplo,  ‘Abro o meu peito para poder  respirar`. Não é que seja difícil isso, mas você falar isso  convictamente, dramaticamente, ‘cuidem desses pobres príncipes,  meigos&#8230;` Era um trecho tão bonito. São coisas que você, como  comediante, está arriscada a pensar que aquele tom te remete a uma  crítica ao melodrama. Hoje, vejo que se eu tivesse feito a Bia antes,  teria me rasgado mais na Elizabeth, sem pudor. Como era uma coisa que eu  achava que tinha de vir de dentro, muito de dentro, e eu tinha que me  descabelar, me jogar pelo palco e cair no chão arrastada, eu ficava  presa dentro dessa coisa.</p>
<p><strong>P &#8211; E com a Bia?</strong><br />
R &#8211;  No início, eu também estava muito aflita com essa história do menos. As  orientações que eu tinha é que ela era pisciana &#8211; eu tinha estudado um  pouco de astrologia para fazer a personagem porque ela era astróloga. O  pisciano é um ser derramado, ele é choroso, emotivo. Ela não conseguia  digerir esse trauma, era uma coisa da qual ela falava sempre. As  palavras que a Adelaide (Amaral) colocava no texto eram muito fortes.  Não era uma coisa seca,  digamos. E aí, na hora, eu decidi, por mim, que  ia embora, que ia me derramar, que se eu errasse para quarenta milhões  de brasileiros estava tudo bem! Ah, eu não vou me poupar, não podia  morrer na praia com um personagem desses.</p>
<p><strong>P &#8211; É uma sensação recorrente  para você? </strong><br />
R- Tenho muito isso, uma pena de perder aquela  vida, aquela carona naquela vida, mais do que de perder aquela  oportunidade de me mostrar. Quando eu estou trabalhando, graças a Deus,  eu penso pouco no resultado. Sempre falo isso, o que vale é o processo. A  Bia já foi. Lá, naquela hora em que eu estava fazendo as minhas cenas,  naquela hora em que eu estava em frangalhos ali, isso para mim é o  inesquecível porque é uma vivência que eu tive sem ter tido. Uma coisa  que ficava no meu corpo depois. Um dia, fiz uma cena e quando cheguei no  camarim o meu queixo não parava de bater, eu estava suando e não estava  calor. A minha perna fazia assim, sabe quando o músculo fica&#8230; Eu  pensei assim, que coisa louca é essa profissão que provoca isso nos seus  músculos, no seu corpo, em você, fisicamente. Eu saia depois de um dia  de gravação com uma coisa no peito. Sabe quando acontece alguma coisa na  sua vida, que você perde pessoas queridas, você chora o dia inteiro?  Você está em estado choroso. Para mim é muito aqui (aponta o coração), é  uma coisa que fica.</p>
<p><strong>P- É um processo gratificante?</strong><br />
R  &#8211; É maravilhoso que você possa provocar isso. Mas eu fico pensando,  viver como eu tive que viver <em>Ricardo III</em>, de quinta a domingo,  durante um ano e meio&#8230; Do jeito que eu fiz não era bom. Hoje, talvez  fizesse um pouco mais tecnicamente, não sei. Porque eu ficava buscando  esse negócio de dentro. Eu deveria ter me servido muito mais da minha  voz, do meu corpo, e ido pras cabeças, dado os berros que eu tivesse que  dar (eleva a voz), com propriedade, segurança. Com propriedade sobre a  minha voz, sobre a minha respiração, e sem precisar sofrer a cada noite.  No <em>Ricardo III</em>, eu, ingenuamente, por ser uma comediante,  achava que se não sofresse não estava valendo, ficava catando em mim  esse sofrimento toda noite. Como diz Lawrence Olivier, não somos nós que  temos de sofrer, são eles. Quem chora são eles, nós não choramos!</p>
<blockquote><p>&#8220;A televisão está sofrendo desse problema aquático. A lágrima tem um valor enorme na televisão.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>P &#8211; Existe uma valorização maior  do sofrimento na interpretação?</strong><br />
R <strong>- </strong>Tem, é  bonito, é valorizado. O ator que chora, que derrama a lágrima. Aliás,  eu digo que a televisão está sofrendo desse problema aquático (risos).  Porque a lágrima tem um valor enorme na televisão, enorme. E olha que um  olho marejado, às vezes, é muito mais forte. Uma pessoa com vontade de  chorar me dá muito mais vontade de chorar do que uma pessoa chorando. É  engraçado porque a lágrima na televisão tem um valor enorme, uma lágrima  que cai. Uma vez uma menina, numa dessas cidades em que eu fui com o  teatro, disse para mim: ‘Eu queria tanto ser atriz`, foi tão  impressionante, ‘olha como eu sei chorar&#8230;` E chorou!</p>
<p><strong>P &#8211; No caso das personagens  dramáticas, você queria correr esse risco, viver outras facetas como  atriz?</strong><br />
R- Queria muito. Acho que todo ator quer correr  risco. Ator não resiste a um papel muito diferente de si mesmo.</p>
<p><strong>P &#8211; Por que isso?</strong><br />
R-  Por essa vida múltipla mesmo. Viver o que você nunca seria capaz de  viver nessa vida. Acho que tem isso, esse querer viver tudo, querer  viver o outro. O ofício do ator é uma coisa sensacional. Pega uma arma,  dá um tiro, o cara cai e depois se levanta. Uma vida só não basta. O  nome do meu livro vai ser esse,<em> Uma vida só não basta</em> (risos).</p>
<p><strong>P- A experiência do ator é muito  peculiar porque envolve alguma coisa muito física,  é o seu corpo&#8230;</strong><br />
R-  Você se empresta. E eu sou uma atriz que se lança muito. Às vezes, eu  me machuco bem. Se tem cena de briga, sabe? Uma vez, tinha que rasgar a  roupa de uma atriz de quem eu tinha ciúme com o meu marido, numa novela.  No ensaio, achei que estava gravando, eu fui pra cima dela e rasguei a  roupa da atriz. Teve que parar tudo, esperar costurar. Uma vergonha..</p>
<p><strong>P- Tem aquela pergunta clássica  que é feita em toda entrevista com atrizes e atores &#8211; o que você  prefere, cinema, teatro ou televisão?</strong><br />
R &#8211; Estou muito  fascinada pelo cinema. Eu escolheria o cinema. Aliás, eu queria muito  fazer mais cinema. Acho que as pessoas não me convidam para fazer cinema  porque acham que eu sou aquela comediante do <em>Retrato Falado</em>. E  não viram outras coisas que eu fiz. Eu posso descer esse tom. O cinema  requer mesmo que você faça num tom menor, a tela é muito grande. O seu  olho num close é uma coisa assim&#8230; (risos)</p>
<p><strong>P &#8211; Você gosta de se ver?</strong><br />
Resposta  &#8211; Não, a gente sofre muito se vendo. Procuro me ver porque se corrige  muita coisa. Mas é sempre sofrido. Porque o filme que passa na nossa  cabeça é sempre aquele melhor filme europeu, é o que você faz quando lê o  roteiro e você se imagina lá, com aquelas pausas, aquele cabelo, aquele  cachecol, aquela pele clara e aquele olhar profundo. Você sempre  imagina atrizes que você conhece. Quando você faz a cena, você está se  imaginando no melhor de você. E sempre fica aquém. Eu falo para os meus  filhos, leiam, vejam filmes também, mas leiam porque a imaginação é o  melhor filme.</p>
<p><strong>P- Você comentou sobre a  influência de Marília Pêra nas atrizes da sua geração e gostaria de  saber como foi a experiência de contracenar com outra grande atriz  brasileira, a Fernanda Montenegro</strong>.<br />
R-  Foi genial. Foi  lindo. Ela é uma referência para todos nós, um mito. Ela é a maior. Eu  fiquei muito impressionada. Outro dia, mandei um e-mail para ela  agradecendo. Falei da possibilidade de vê-la fazer a mágica. Porque você  dá uma fala banal para ela e a maneira com que ela constrói isso na  boca, a maneira como ela desorganiza isso para dizer.</p>
<p><strong>P- Um domínio vocal também  impressionante, não?</strong><br />
R- É muito impressionante aonde ela põe  a voz, e ela diz, ela finca aquele olho e espera. Ela é senhora daquele  ofício plenamente. Então, foi muito bonito vê-la de perto, dentro  daquela indústria que é a TV, porque cada um se vira uma hora como pode  porque é uma correria. Você vê-la construindo, ali, mesmo com o fogo  pegando, é lindo, lindo.</p>
<p><strong>P- Nessa época de padrões  industriais, rigorosos, haveria espaço para uma história como a do filme </strong><em><strong>O Crime da Atriz,</strong></em><strong> em que a  personagem se lança em busca de um espaço maior em cena e compete com os  outros atores?</strong><br />
R &#8211; Acho que não. O que existe, às vezes,  são truques, mas é uma coisa mais antiga, que na televisão a gente  conhece como ‘chamar a câmera&#8221;. O ator indica que vai falar, o cara que  está cortando pluga para ele, só que ainda não é a fala dele, só está  reagindo para chamar a câmera. Coisinhas bobas assim. Não é assim,  digamos, pertinente mais. Mas essa coisa de roubar a cena, sempre tem.  Enquanto um está falando, no teatro, o outro está fazendo gestos. Mas  isso são códigos, vai se acomodando. Pode ter uma briguinha aqui ou ali  por causa disso. Graças a Deus,  vivi pouco isso.</p>
<p><strong>P- Ao contrário da realidade que  o filme retrata, no final do século XIX, existe hoje uma carreira  estruturada para as atrizes no Brasil ou tudo depende de um sucesso  ocasional?</strong><br />
R &#8211; É muito variado. Quando você vai construindo  uma história maior de trabalho, chega uma hora em que, se não tiver um  contrato com a televisão, vai fazer teatro, viajar pelo Brasil com a  peça ou levantar aquele curta-metragem em que está trabalhando no  roteiro. Você vai tentando, primeiro, pagar suas contas, o leite das  crianças. O mais louco é que, mesmo com um contrato com a televisão,  quando você é picada por esse bichinho, o que graças a Deus aconteceu na  minha vida, que é produzir os seus projetos, você não descansa mais.  Chega uma hora em que dá vontade de falar assim ‘Deus, é brincadeira`.  Dá vontade de descansar, de se dar uma trégua. Um ano sem pensar em  nada. Mas é quase impossível, porque você vai ver uma peça, quer saber  que autor é aquele, pedir os outros textos dele. Aí, você gostou daquele  autor, lê e diz que isso daria um filme maravilhoso! Você liga para  alguém que é roteirista pergunta o que ele acha. Não que eu não vá  trabalhar em outros, até gostaria que as pessoas soubessem que não estou  fechada aqui dentro dos meus projetos. Eu aceito convites e é muito bom  sair da ilha que você criou.</p>
<p><strong>P &#8211; Você fica mais plural, não?</strong><br />
R-  Você põe a cabeça para fora da janela e vê coisas além das suas  perspectivas, outras leituras, outros ângulos, outras maneiras de ver. E  se tudo der errado, eu faço o que eu fiz pela primeira vez, rifo o  relógio do meu tio, que me deu um relógio para rifar, pego a cortina da  casa da minha avó, uma cortina que cobre três cadeiras juntas, costuro e  faço um sofá. Foi assim que a gente montou a primeira peça, eu e meu  grupo de teatro.</p>
<p><strong>P- Quando foi isso?</strong><br />
Resposta  &#8211; Foi em 1987, no Rio. A gente montou <em>As desgraças de uma criança</em>.  Ensaiamos no quintal da minha casa e passamos a bater perna, pegar  ônibus e ir de escola em escola. Fizemos uma lista das escolas do Rio de  Janeiro e falávamos que estávamos estudando Martins Pena, França Jr,  Joaquim Manoel de Macedo, Arthur Azevedo. Falávamos da importância de  conhecer a nossa dramaturgia. A gente fez com isso uma história muito  bonita. Engraçado, eu nem ia falar disso, mas foi tão importante para  mim.</p>
<blockquote><p>&#8220;Nós decoramos textos enormes!&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>P- Existe um estilo brasileiro  de representar?</strong><br />
R &#8211; Acho que posso dizer daquela coisa da  malemolência, um certo jogo de cintura, uma cadência. A gente é molinho.  Isso talvez seja um traço de um representar brasileiro. Esse negócio  que a gente faz com as telenovelas, em nenhum lugar do mundo se faz.  Essa coisa que  um protagonista de novela faz, que é decorar cem laudas  por semana &#8211; por semana -, não existe isso. Tanto que o (Marcos) Caruso  tem uma história interessante, quando ele foi fazer uma novela na  Itália. Chegou lá e começou a ter as reuniões, os ensaios, conhecer os  atores. Quando os atores começaram a receber os textos, perguntaram,´mas  e o ponto? Decorar? Não fazemos isso`.</p>
<p><strong>P- Como é que eles fazem?</strong><br />
R-  É ponto, ninguém decora, não existe essa coisa de decorar. É louco  porque nós decoramos. Talvez isso seja um grande traço do representar  brasileiro, nós decoramos textos enormes!<strong> </strong></p>
<p><strong>P &#8211; E como é viver sob  holofotes? É difícil, invasivo? Isso nos remete de novo à questão das  celebridades.</strong><br />
R- É uma profissão de muita exposição. Ao  mesmo tempo em que é a melhor profissão do mundo, por isso tudo que eu  falei, por essa coisa das múltiplas vidas, é uma profissão em que você  permite que te metam o dedo no nariz. Você vai lá, sobe num palco, faz  um negócio e aí uma pessoa que está sentada no meio da platéia, fala  (levanta a voz) assim: ‘Não, não, Denise, não, Denise, assim não, faz  assim&#8221;. Você vai lá e faz. ‘Não, Denise, ficou ruim.&#8221; Você está ali toda  noite, se expondo para aquelas pessoas gostarem ou não de você. E essa  história de dizer que o ator fica muito sujeito aos elogios, funciona  com os elogios. Funciona com elogios sim, claro, nós nos expomos. A  princípio, somos exibidos por natureza, o que não significa que não  sejamos tímidos. Agora, eu aprendi a falar, mas, por natureza, era muito  tímida.</p>
<p><strong>P &#8211; Mesmo no teatro? </strong><br />
R-  O teatro, na verdade, foi o primeiro lugar onde eu senti um certo  conforto porque eu não era responsável pelos meus atos, porque me  escondia de alguma maneira. Acho que isso foi o grande lance na minha  vida, porque me deu mais segurança. Descobri uma coisa que eu gostava  muito de fazer, que diziam que eu fazia bem. E essa aceitação realmente  te move, principalmente nessa profissão. Não existe nada pior para um  ator do que saber que você é um mau ator, que você é um canastrão. E tem  atores que são insistentes. É admirável até porque existem atores que  todo mundo acha ruins e eles continuam trabalhando ali, eles estão ali. É  um amor muito grande à profissão, um amor por fazer aquele negócio  independente desse reconhecimento.</p>
<p><strong>P &#8211; É até uma característica dos  atores, não? Em geral, eles amam muito a profissão.</strong><br />
R-  Ninguém força você a ser ator. Seu pai pode forçar você a ser médico, a  ser engenheiro. Você briga muito para ser ator. Então, na hora que você  consegue superar, pagar o seu primeiro aluguel com a sua profissão, você  não sabe a alegria que é. Ah, é muito bom. Então, para mim, que era  super dura&#8230; A minha família é uma família de classe média cheque  especial. Não faltava comida, mas de vez em quando tinha ovo. Na hora em  que você resolve ser atriz é meio um sonho impossível. Não tinha  ninguém na minha família que fosse ator, não tinha nenhuma tradição,  artista nenhum. Lá em Lins de Vasconcelos, no Rio de Janeiro, subúrbio  do Rio, eu resolvi ser atriz.</p>
<p><strong>P &#8211; E eles se surpreenderam com a  sua trajetória?</strong><br />
Resposta &#8211; Muito, muito. Acho que até hoje.  Eles são muito orgulhosos de mim, sinto muito isso, fico feliz. Tenho  uma família muito grande, no Rio, no subúrbio, muito churrasco no  domingo, fico com muita saudade disso. Vivo em São Paulo há muito anos.  Na verdade, sou um caso raro de adaptação, com prazer, de cariocas em  São Paulo. Também isso se deve ao fato de eu não ter água salgada na  veia. Não sou da beira-mar porque morava no subúrbio até os 24 anos.  Depois é que eu morei na Zona Sul. Quando morava no subúrbio, ia à praia  todo final de semana de ônibus. É como o paulista que vai para o  litoral no final da semana. E tem a coisa do bairro. Então, tem uma  identificaçãozinha.</p>
<p><strong>P &#8211; Aliás, as pessoas têm uma  imagem do carioca meio permissiva, meio liberada, mas os bairros são  tradicionalíssimos.</strong><br />
R- Preciso fazer um Nélson Rodrigues na  minha vida, eu sou completamente suburbana! E ele é da Tijuca. Eu sou  mais, sou ali do lado do Grajaú, sou Lins de Vasconcelos. Eu entendo  tanto o texto do Nelson, tanto, tanto. Mas eu estava falando que é por  isso que, acho, me adaptei em São Paulo, embora sinta muita falta da  família. Eu sinto muita falta de mesa cheia, minha casa é uma casa de  vila, a porta ficava aberta e quem entrasse, entrava. Quando você via,  tinha uma pessoa já na sala. A casa da minha bisavó era numa rua e os  filhos foram se casando e fazendo uma tribo em volta. Na verdade, hoje  eu tenho a minha família, os filhos, mas cada vez que eu vou lá fico  muito aflita porque o tempo é muito cruel. Eu chego lá e eles estão cada  vez mais velhos, as pessoas da minha vida. Pessoalmente, ando com a  impressão de que esse mundo está  muito grande para mim.</p>
<blockquote><p>&#8220;O cinema tem a mesma coisa sagrada do teatro.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>P- Por quê? Você queria uma  coisa menor, mais aconchegante?</strong><br />
R &#8211; Queria, eu me sinto fora  do meu tempo. Eu seria mais feliz em 1950. O que sinto é que eu não dou  conta disso tudo, eu sou muito distraída.. Também eu tenho muito  elemento ar no meu mapa astral, eu sou libra, ar, e aquário, lua em  aquário. Muito sonho, o campo do sonho, eu fico imaginando como poderia  ser. Um lado místico, tenho bastante isso.  Essa coisa das pessoas  dizerem que você tem que acessar o site, de perguntarem se você nunca  entrou no <em>orkut</em>. Eu nunca entrei no <em>orkut</em>, não sei o  que se faz lá, por que eu preciso do <em>Orkut</em>,  fico pensando. Eu  quero ler todos esses livros. Abro o jornal e vejo uma página inteira de  roteiro de cinema e o que eu faço com todos esses filmes? Eu não vou  ter tempo de ver..</p>
<p><strong>P &#8211; É uma ansiedade enorme que  isso provoca, não?</strong><br />
R- Sim, provoca. O mundo te oferece  muitas coisas boas, oportunidades imperdíveis. Todas imperdíveis! Eu  faço muitas coisas no dia, sou mãe e muito presente, graças a Deus,  porque adoro também ser mãe. Vou até lançar um livro sobre isso. Tenho  uma coluna e escrevo sobre esse encostar-se na parede que é ser mãe.  Então,  tenho as crianças, o trabalho e você quer cumprir com aquilo  tudo. No fim, você realmente não dá conta. Todo dia que acaba é uma  frustração, sempre a sensação de que você não fez. Mas você fez muitas  coisas, seu dia rendeu muito. É que você não dá conta deste mundo.</p>
<p><strong>P- Por fim, gostaria que você  falasse um pouco mais sobre o cinema, que é a sua preferência, como você  disse.</strong><br />
R- Acho que o cinema tem um negócio sagrado. Não sei  se é porque a gente produziu e o cinema é muito caro para você  conseguir levantar um projeto de cinema. É um negócio que, quando você  consegue, carrega como um tesouro. A câmera rodando, você sabe que não  pode errar, se errar, queimou o negativo. Então, é uma concentração  absoluta de todo mundo, o ensaiar antes. A impressão que tenho é que o  cinema tem a mesma coisa sagrada do teatro. Mas de uma outra maneira. É  como se naquela película, com aqueles fotogramas, de alguma maneira você  estivesse ali colorindo quadrinho a quadrinho. Na hora em que escolho  virar a cabeça assim, ou virar assim, estou fazendo uma pintura.</p>
<p><strong>P -  Ou seja, uma grande paixão. </strong><br />
R &#8211; Eu adoro fazer cinema, eu queria fazer mais. Quando  você vai para a cena, vai pular do trapézio! Você vai dar um salto  mortal. E ao mesmo tempo você tem que fazer tudo isso parecer que não  está fazendo esforço nenhum. Tudo ali, a vida existindo ali aos  pedacinhos, que você fabrica fazendo umas coisas ali. Então, é muito  lindo o cinema, essa representação mínima, você lidar com o  absolutamente real, quase um naturalismo. No teatro, você tem aquela  caixa da lápis que você tinha como família de classe média cheque  especial, a caixa de lápis de doze cores. Um dia, aquela sua tia rica te  deu aquela de 36 cores,  sabe? E tem aquele salmão, aquele marrom ocre.  Quando você trabalha com cinema essa gama da sua paleta se amplia  muito.</p>
<p><strong>P- Isso também exige um  exercício muito grande de observação das expressões humanas. Você é uma  pessoa que observa muito o outro?</strong><br />
Resposta &#8211; Acho que sim.  Naturalmente a gente faz isso. Com o <em>Retrato Falado, </em> acho que  fiquei muito assim também. Um dia, estava vendo um vídeo com uma atriz  que tem um jeito de falar muito particular. Aí, não agüentei. Quando me  dei conta, eu já estava fazendo igual. Sem perceber,  fui fazendo. Somos  observadores da vida para criar o espelho.</p>
<p><br class="br" /><br />
<a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/" target="_blank">Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento</a></p>
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		<title>No mundo do teatro e da paixão</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 03:46:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

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		<description><![CDATA[O mundo da atriz Inês Peixoto é  profundamente teatral. Suas histórias são as histórias das personagens  que interpretou e que contam sua vida. Seu espaço são os palcos sagrados  em que pôs os pés.
Ela pode medir a passagem do tempo pelas  tendências que se sucederam no cenário brasileiro. Assim como marca [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_177" class="wp-caption alignleft" style="width: 197px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto01-Adalberto-Lim.jpg"><img class="size-full wp-image-177" title="inespeixoto01-Adalberto-Lim" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto01-Adalberto-Lim.jpg" alt="" width="187" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Aprender sempre e lidar com o novo&quot; <em>Foto: Adalberto Lima</em></p></div>
<p>O mundo da atriz Inês Peixoto é  profundamente teatral. Suas histórias são as histórias das personagens  que interpretou e que contam sua vida. Seu espaço são os palcos sagrados  em que pôs os pés.</p>
<p>Ela pode medir a passagem do tempo pelas  tendências que se sucederam no cenário brasileiro. Assim como marca em  seu próprio corpo a evolução dos instrumentos de que lança mão para  representar &#8211; os movimentos, a voz, o espírito.</p>
<p>A entrevista com a premiada atriz  mineira é um mergulho em sua paixão pela carreira que exerce há 26 anos,  boa parte dos quais integrada ao Grupo Galpão, que tornou Belo  Horizonte uma referência de qualidade e inovação nas artes cênicas.</p>
<p>Inês iniciou sua participação no Galpão  quando contava dez anos de atividade teatral e considera esse encontro  &#8220;um presente de aniversário por uma década de lutas&#8221;. Mais recentemente,  tem conseguido exercitar-se também no cinema &#8211; um sonho que julgava ao  mesmo tempo fascinante e impossível.</p>
<p>O seu percurso foi sempre acompanhado  pelo desafio de exercer o ofício num ambiente adverso, marcado por  oportunidades escassas e uma instabilidade quase crônica no mercado de  trabalho. Em Minas, está ausente o aparato televisivo que cerca as  atrizes nos grandes centros do País. Assim como faltam iniciativas para  consolidar um espaço mais amplo de produção para o cinema e a televisão,  o que ela defende com ardor, a exemplo do que se tornou realidade no  Rio Grande do Sul.</p>
<p>A conversa com Inês significa também a  oportunidade de constatar o enorme prazer com que ela se dedica à sua  arte. O cuidado na composição das personagens, atestado uma vez mais  pela protagonista que interpreta no filme <em>O Crime da Atriz</em>,   não é apenas cosmético. Como ela própria diz, é preciso preencher a alma  para que possa ser de verdade &#8211; no palco, na rua, no cinema, em  qualquer lugar onde se encontre uma atriz e alguém disposto a entrar no  jogo da representação. (<strong>Beth Cataldo</strong>)</p>
<blockquote><p>&#8220;O que realmente fica é o que tem a consistência de um trabalho&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>Pergunta &#8211; O que significa ser  atriz hoje, numa época marcada pelo culto às celebridades?</strong><br />
Resposta  &#8211; Pra mim, significa o que sempre significou. Ser atriz é uma profissão  como outra qualquer, em que se precisa ter a disponibilidade de  aprender sempre e lidar com um material novo a cada trabalho. Ser atriz  para mim significa ter uma atenção especial à saúde, porque o nosso  principal instrumento é o corpo e a voz. E, evidentemente, o espírito,  que é de onde a gente tira a matéria para os personagens. Acho que  existe mesmo esse culto às celebridades, em que as pessoas se tornam  atores e atrizes a partir de qualquer situação em que são colocadas em  evidência. Sem essa coisa de preconceito, é como se o momento em que os  holofotes estão em cima da vida de uma pessoa a capacitasse para ser  ator ou atriz. Acho que a gente vive numa época de fogos fátuos. Um ator  de verdade e uma atriz de verdade passam por um outro viés. Tem que  estudar muito para exercer a profissão, praticar muito, aprimorar muito o  corpo, a voz e a cabeça, enfim. Acho que essas coisas acontecem mas  elas não permanecem.</p>
<p><strong>P &#8211; E o que fica?</strong><br />
R &#8211;  O que realmente fica é o que tem a consistência de um trabalho, esse,  sim, vai continuar. Quando você vê uma pessoa com uma trajetória  interessante é porque ela realmente desenvolveu o exercício do teatro e  da atuação. O pior é realmente colocarem pessoas que não estão  preparadas num veículo de comunicação de massa, como é a televisão ou o  cinema. No teatro também acontece, mas é mais difícil a pessoa conseguir  se manter, normalmente não é um campo que eles procuram porque é mais  difícil. Mas você vê algumas ingerências no campo teatral que são  caça-níqueis mesmo. São pessoas que estão em evidência por um motivo que  não a arte.</p>
<p><strong>P &#8211; Gostaria de saber de sua  formação como atriz, da passagem pelo Teatro Universitário e outros  centros.</strong><br />
R &#8211; Infelizmente, não tenho uma formação acadêmica  em teatro. Na época em que comecei, não existia faculdade de artes  cênicas em Belo Horizonte, foi implantada depois. Tive uma breve  passagem pelo Teatro Universitário e depois entrei para o curso do  Cefar,  que é o curso de formação artística da Fundação Clóvis Salgado.  Tenho uma formação de vivência mesmo, em que  procuro estudar o máximo  que eu posso.</p>
<p><strong>P &#8211; Certamente a convivência com  uma companhia como o Grupo Galpão te deu acesso a todo um aparato para o  seu crescimento como atriz, não?</strong><br />
R &#8211; Nossa, tremendamente. A  partir da minha entrada no Galpão eu tive a oportunidade, sem dúvida,  de entrar em contato com esse fazer teatral de grupo, que é  diferenciado. Porque é um grupo de pessoas que têm um projeto a longo  prazo. A gente não faz montagens por fazer montagens. Não tenho nada  contra, já fiz muito &#8211; tenho essa maleabilidade, não sou contra nada. Eu  já trabalhei tanto em montagens comerciais como, mesmo antes do Galpão,  tentei fazer produções mais elaboradas, como um espetáculo do  (Fernando) Arrabal que produzi. Enfim, quando entrei no Galpão,  realmente consegui encontrar um grupo de pessoas que me encaminhou para  algo que eu procurava e que ainda não tinha encontrado em produções  solitárias.</p>
<p><strong>P- Em que ano isso aconteceu?</strong><br />
R-  Entrei para o Galpão em 92. Assim como o Galpão, tenho 25 anos de  carreira. Quando entrei, coincidentemente, eu estava fazendo dez anos de  carreira e o Galpão, dez anos de existência. Acho que foi um presente  de aniversário para mim, de uma década de lutas. Quando você entra num  grupo como o Galpão, entra num projeto de vida, num projeto de pesquisa.  Passa a enxergar caminhos, começa a trilhar um caminho com um viés  diferenciado.</p>
<p><strong>P &#8211; As atrizes que estão  sujeitas a produções mais erráticas, sem continuidade, enfrentam uma  luta mais árdua?</strong><br />
R &#8211; Sim, é mais difícil.  Tive essa  experiência porque não comecei a minha carreira num grupo. Apesar de ter  trabalhado em vários espetáculos com os mesmos produtores, os mesmos  companheiros de cena, acho que é mais solitário. O grupo te permite  desenvolver áreas que solitariamente você não desenvolveria. Por  exemplo, o Galpão utiliza música, e eu achava que nunca iria dar conta  de estudar música, de tocar um instrumento. Eu não usava isso na minha  prática teatral. Quando entrei para o grupo, eles já estavam trabalhando  havia alguns anos com essa idéia de cada ator tocar um instrumento, de  executar as  trilhas ao vivo. Então, você fala, agora eu vou encarar  isso, chegou a hora de tirar essa coisa de que não dou conta de música,  vou ter que dar conta sim &#8211; e você dá. Isso vai ser aproveitado, você  faz uma descoberta bacana de que a música é uma coisa maravilhosa para o  ator, como partitura de cena também. Quando você entende a música,  consegue entender o que é ritmo, enfim. Tocar em cena é também um  exercício de concentração maravilhoso para o ator. É um recurso que  resulta para fora, mas resulta para dentro também, nessa questão do seu  desenvolvimento.</p>
<div id="attachment_178" class="wp-caption alignleft" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto02-biancaaun.jpg"><img class="size-full wp-image-178" title="inespeixoto02-biancaaun" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto02-biancaaun.jpg" alt="" width="280" height="193" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Os festivais abrem um olhar muito mais amplo em cima do fazer teatral do mundo.&quot; <em>Foto: Bianca Aun</em></p></div>
<p><strong>P &#8211; O fato de estar integrada a  um grupo te deu, portanto, muito mais possibilidades de desenvolvimento.</strong><br />
R  &#8211; Em todos os sentidos, minha escola maior, de desenvolvimento da  música, de começar a pensar um projeto desde a sua primeira célula.  Nesse ponto, entramos num viés de pesquisa, que é sempre delicioso.  Quando você começa a tocar em algum assunto ou época sobre as quais quer  falar, abre-se um enorme viés de pesquisa. E a vivência de festivais,  que é muito importante também para um ator. Comecei a ter contato com  outros grupos do Brasil, de teatro de rua e de palco também.</p>
<p><strong>P &#8211; Um intercâmbio, uma troca de  experiências&#8230;.</strong><br />
R &#8211; Festivais nacionais e internacionais, o  que abre um olhar muito mais amplo em cima do fazer teatral do mundo.  Mesmo que encontre tendências que não batem com a sua, é sempre muito  bom ver como tem milhões de pessoas pensando teatro, cada um à sua  maneira.</p>
<p><strong>P &#8211; Ao longo de sua trajetória, o  Galpão alterna experiências de teatro de rua e de palco, chamando  atenção para as diferenças &#8211; o teatro de palco exigindo um rigor maior,  mais acabamento, enquanto o teatro de rua é mais jogo e improvisação.  Para você, o que significam essas duas experiências, esses dois campos  de experimentação?</strong><br />
R &#8211; Acho que vêm somar. Tanto a rua  quanto o palco trazem ferramentas interessantes. Na rua, ao mesmo tempo  em que você trabalha com mais abertura de expressão e de corpo, tem que  trabalhar com uma ampliação de voz. A rua exige um grau de concentração  incrível porque você tem que estar aberto ao que acontece ao seu redor.  Muitas vezes, o que acontece ao seu redor enriquece a cena. Você  trabalha muito com improviso, com o imprevisto, com uma expansão de  energia muito grande. Sua energia tem que estar indo para os 360  graus&#8230; Na rua, você lida com o tempo, com o barulho e com pessoas que  muitas vezes não vieram para assistir o seu espetáculo, elas estão  passando. É claro que quando se anuncia um espetáculo do Galpão na rua,  muita gente chega para ver. Mas muita gente pára porque viu um movimento  ali e nunca ouviu falar de Galpão. A gente viaja por praças diversas do  Brasil e do mundo, e vê aquele movimento, aquela coisa montada e tem a  missão de fazer com que aquelas pessoas fiquem ali e assistam. Então,  você tem que capturar as pessoas.</p>
<p><strong>P &#8211; E o palco?</strong><br />
R &#8211; O  palco já oferece uma situação propícia, que é a criação de uma falsa  noite. A partir do momento em que o ser humano entra numa caixa preta,  já está aberto para entrar na fantasia. Ele está a fim de entrar no  jogo. Então, você lida com uma platéia que está ali mais predisposta.  Isso não quer dizer que seja mais fácil, porque o público tem um olhar  mais aguçado. Dentro de uma caixa preta, os olhos de quem te assiste se  transformam em olhos bem maiores, eles não têm nada competindo em volta.  A atenção da platéia é muito grande. Você tem que, do mesmo modo,  capturar aquela platéia e levá-la com você. Mas no palco você trabalha  com uma platéia que já está mais dentro do jogo.</p>
<p><strong>P &#8211; É uma energia diferente que  você sente?</strong><br />
R &#8211; A energia do público é sempre linda. E é  diferente a cada apresentação. Isso é a verdade mais pura que existe.  Acontece algo que é uma coisa inexplicável. Você pode estar no mesmo  teatro, com a mesma luz, a mesma caixa preta, o mesmo número de pessoas,  mas um espetáculo nunca vai ser igual a outro porque existe uma troca  de energia, que é inexplicável. Às vezes, isso não acontece. Você sente  que o espetáculo está correto, as coisas estão corretas, não acontece  nada demais, só que não existe uma troca de energia, é engraçado, não é?   Não sei se a gente não conseguiu capturar, se não houve a famosa  empatia. Às vezes, não acontece.</p>
<p><strong>P &#8211; Você já passou por essa  experiências?</strong><br />
R &#8211; Muitas vezes. Você sai e fala &#8211; não que o  espetáculo teve algum problema sério, mas não aconteceu. Isso acontece  na rua, no palco. Eu adoro os dois espaços. A rua te joga mais perto do  olho do espectador, a gente faz o espetáculo com o espectador sentado na  beira.  Às vezes, você olha no olho de uma pessoa e passa uma coisa na  hora que é impressionante. Outra hora, a pessoa está com um olho  brilhante e aquilo te dá uma injeção, te passa uma emoção. No palco, é  um pouco mais distante, você percebe isso também, mas na rua você dá de  cara com as pessoas. É forte, é muito próximo. Você consegue essa  proximidade também no palco, quando é possível, não é em todos os  momentos que se consegue olhar no olho do espectador.</p>
<div id="attachment_179" class="wp-caption alignleft" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto03-biancaaun.jpg"><img class="size-full wp-image-179" title="inespeixoto03-biancaaun" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto03-biancaaun.jpg" alt="" width="280" height="186" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Eu consigo enxergar minha maturidade para abordar personagens e usar os recursos desenvolvidos ao longo dos anos.&quot; <em>Foto: Bianca Aun</em> </p></div>
<p><strong>P &#8211; O tempo e a experiência te  fazem perceber mais a platéia ou a profissionalização leva a um certo  distanciamento?</strong><br />
R &#8211; Quanto mais experiência eu tenho em  teatro, acho que sei menos; quanto mais estudo, tenho mais a estudar,  são tantas épocas para beber&#8230; Evidentemente, o tempo te dá algumas  ferramentas para lançar mão. É claro que ao longo do tempo você domina  algumas técnicas que são necessárias &#8211; tem domínio do seu corpo, da sua  voz, do que você pode lançar mão para criar uma cena, para estar ali  diante do público. O tempo te dá isso. Mas, para mim, o contato com o  público é sempre uma coisa nova, é sempre uma primeira vez. Cada público  é diferente. Eu consigo enxergar a minha maturidade para abordar  personagens e usar os recursos desenvolvidos ao longo dos anos em que  tenho estudado. Oficinas, encontros com pessoas interessantes que ajudam  a aprimorar o seu olhar em cima do trabalho, do seu personagem &#8211; tudo  isso me traz segurança para desenvolver o meu trabalho, como eu quero  enxergar o personagem, como é que eu chego nele, os caminhos que passo.  Estou sempre em busca disso e assimilando as coisas interessantes que eu  vou pegando aí pelos anos, nos encontros&#8230;</p>
<p><strong>P &#8211; Quer dizer, a experiência  não anula esse olhar de encantamento que você tem com o teatro?</strong><br />
R  &#8211; Não, não.</p>
<p><strong>P &#8211; Queria recuar um pouco no  tempo e falar de sua decisão de ser atriz. Qual foi o impulso que te  levou a esse caminho? Por que você decidiu se tornar atriz?</strong><br />
R  &#8211; Não decidi, acho que ser atriz é que me escolheu. Estou fazendo uma  brincadeira, porque é incrível, desde a minha infância, com seis anos de  idade, eu transformava tudo em encenação. Eu vivia num mundo muito  ligado à encenação. E eu tinha uma coisa de transformar&#8230; por exemplo,  as camisolas da minha mãe viravam os vestidos longos das princesas.  Outra coisa que eu fazia era pegar esses plásticos de lavanderia que vem  nos ternos e cortar aquilo em tiras fininhas para fazer perucas de  cabelos longos das princesas, aqueles cabelos enormes. Eu vivia no mundo  da lua.</p>
<p><strong>P &#8211; O cinema também fez parte de  sua infância?</strong><br />
R &#8211; Fui ao cinema pela primeira vez aos cinco  anos de idade. Eu era completamente apaixonada por cinema. A gente  também via muito filme na televisão, nessa época. Os filmes antigos,  como <em>O Mágico de Oz</em>, passavam na programação da televisão, não  havia vídeo. O cinema me alucinava e o teatro foi se consolidando como  uma coisa mais próxima, mais possível. Fui tomando contato com o teatro  desde os seis anos. E aí comecei a transformar em encenação os trabalhos  de escola, por minha conta. Eu me lembro que, aos doze anos, fiz uma  adaptação da Abolição da Escravatura para teatro. A apresentação do meu  grupo de estudo foi através de uma encenação. Em vez de irmos lá na  frente apresentar, colocar características, conseqüências e causas no  quadro, transformei tudo em encenação. Foi muito legal. Aí eu vi como o  teatro era importante para mim e como podia ser transformador. Você  consegue falar de  tudo com o teatro.</p>
<p><strong>P &#8211; Quer dizer, você sentiu que  era uma forma de expressão&#8230;</strong><br />
R &#8211; Era uma forma de expressão  nata. A minha forma de expressão nata foi através da representação.</p>
<p><strong>P &#8211; E mais à frente, quando  começou a atuar profissionalmente como atriz, você enfrentou  dificuldades, oposição familiar? Ou foi uma coisa tranqüila?</strong></p>
<p>R &#8211; Não senti muita oposição, não. Meu  pai tinha vontade que eu fosse dentista, cheguei a fazer um vestibular  para Odontologia, depois fiz um para Comunicação, mas já estava fazendo  teatro. Acabou que não passei, fui me desligando dessa idéia de uma  outra profissão e entrei de cabeça no teatro mesmo. Quando decidi fazer o  primeiro contato com uma escola foi no Teatro Universitário. Entrei  para o TU mais ou menos aos 19 anos. Depois fui para a Fundação Clóvis  Salgado e lá havia um estágio no segundo ano, quando fiz uma peça  infantil chamada <em>A Lenda do Vale da Lua</em>, de João das Neves. Eu  fazia a peça em pátios de escolas da periferia, em Belo Horizonte  inteira, em qualquer lugar, era como se fosse um teatro de rua, que mais  tarde veio a ser a minha experiência com o Galpão. Num primeiro  momento, comecei a tentar entrar em algum grupo. Eu me lembro que fui na  escola da Priscila Freire, que funcionava embaixo no Teatro Marília, e  eles estavam ensaiando uma montagem. Bati lá e conheci um ator chamado  Kimura. Falei que estava querendo conhecer as pessoas de teatro. Isso  foi legal, porque fui sozinha, na minha família não tem ninguém artista.</p>
<p><strong>P &#8211; E a área artística costuma  ter muito essa tradição familiar.</strong><br />
R &#8211; É. A única referência  que tenho é que a minha avó paterna tinha muita vontade de ter sido  cantora de ópera. Mas é uma família árida, digamos, em termos de aptidão  artística. Com a cara e a coragem eu fui, tive um contato com uma atriz  que era amiga da minha irmã, a Sandra Mansur, que me levou para ver a  primeira peça. Mas foi uma luta muito solitária. Fui bater em produções,  eu não conhecia ninguém de teatro. Quando bati lá  &#8211; ‘ah, estávamos até  precisando de uma pessoa, mas já entrou uma atriz&#8221;. Eu não tinha  experiência. E aí pensei que a única maneira de começar a conhecer as  pessoas de teatro seria entrar para uma escola. Queria entrar, aprender,  fazer contatos, estar aprendendo e começando a exercer realmente o  ofício. A partir do momento em que entrei para a escola, comecei a  estudar teatro e a conhecer as pessoas, tomei isso como um caminho para a  minha vida. Realmente, eu pensei &#8211; mesmo que passe mais dificuldades,  vou trabalhar com o que eu gosto porque quero ser feliz, quero tentar  ser feliz (risos).</p>
<div id="attachment_180" class="wp-caption alignleft" style="width: 197px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto04-Adalberto-Lim.jpg"><img class="size-full wp-image-180" title="inespeixoto04-Adalberto-Lim" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto04-Adalberto-Lim.jpg" alt="" width="187" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Quanto mais você pesquisa, mais detalhes enxerga, eles são interiores e te ajudam na construção. Em busca do personagem, você tem que ir cavando, achando um elemento, o outro e outro.&quot; <em>Foto: Adalberto Lima</em></p></div>
<p><strong>P &#8211; A gente falou um pouco da  distinção entre teatro de rua e de palco e gostaria de falar também das  diferenças entre cinema e teatro. Você tem feito cinema, inclusive </strong><em><strong>O  Crime da Atriz</strong></em><strong>, e pode falar dessas diferentes  formas de representar.</strong><br />
R &#8211; O cinema era um sonho impossível e  o teatro é um sonho mais possível. Felizmente, nos últimos anos, tenho  conseguido ter um pouco de oportunidade de trabalhar com o cinema. Tive a  experiência com o <em>Hoje é Dia de Maria</em>, com o Luiz Fernando  Carvalho, que foi um processo muito rico, como se fosse cinema e teatro.  Comecei a ter um processo de cinema  mais interessante com a Elza  (Cataldo), no filme <em>Vinho de Rosas</em>, quando tivemos a  oportunidade de aprofundar, de fazer uma pesquisa. A Elza tem essa  ligação com a história, isso te preenche demais. Quanto mais você  pesquisa, mais detalhes enxerga, eles são interiores e te ajudam na  construção. A busca para construção de um personagem é a mesma, para  mim.</p>
<p><strong>P  &#8211; Como se dá o seu processo  de criação?</strong><br />
R &#8211; Tanto no teatro como no cinema, procuro ler  muito sobre a época em que se passa o trabalho, o entorno, tomar contato  com a literatura ligada ao tema, ao país. Aí você vai enchendo a sua  imaginação de detalhes para formar a pessoa, uma flor que ela gosta, um  lugar que ela já visitou e que pode fazer parte de um outro livro que  você leu&#8230; Esse processo de verticalização é como cavar. Quando a gente  cava a terra, está em busca de um tesouro. Metaforicamente, você acha  água, acha petróleo, às vezes, um baú de ouro. Em busca do personagem  você tem que ir cavando, vai achando um elemento, o outro e outro. É  legal que isso seja feito para os dois, o teatro e o cinema. Agora, no  teatro, tenho uma noção como atriz de que, depois que ensaio uma peça, a  apresentação é minha. O diretor esteve comigo até um  certo ponto. Eu é  que sei o que vou fazer com o meu braço, estou inteira ali no palco. Se  eu quiser descobrir uma coisa nova com o meu braço, com o meu pé,  durante a temporada, eu vou criando, é meu. É do diretor também, mas  aquilo é meu. E o cinema tem esse encantamento de perpetuar o momento.  Isso é muito interessante para o ator também porque o teatro some,  desaparece, não é?</p>
<p><strong>P &#8211; É como se fosse perecível&#8230;</strong><br />
R  &#8211; Porque o teatro filmado não é a mesma coisa. E o cinema perpetua o  momento. O cinema é também uma surpresa porque você faz um trabalho de  ator mas o seu trabalho vai ser visto através da lente do diretor. Estou  fazendo ali, inteira, mas não sei se o que está interessando a essa  figura do diretor que está me olhando é a minha sobrancelha. Não sei se o  que ele está querendo saber é se a minha sobrancelha vai se movimentar.  Então, você tem que ter confiança no que está fazendo e entregar,  porque você está entregando para um outro olhar.</p>
<p><strong>P &#8211; O atores em geral comentam  muito sobre o ‘menos</strong>&#8220;<strong> na tela. Enquanto o teatro exige a  expansão de movimentos, voz, gestos, o cinema minimiza tudo?</strong><br />
R  &#8211; É instigante porque você vai aos extremos. Eu faço, por exemplo, a  rua, que é o oposto, você tem que crescer tudo. Existem espetáculos no  palco que a gente tem que diminuir também, são mais intimistas. O <em>Pequenos  milagres</em>, que estamos fazendo agora, é bem mais intimista. No  cinema, a câmera fotografa a  alma. Você tem que estar repleto de alguma  história, não pode estar vazio. A câmera entra no olho e o olho é uma  janela para a alma mesmo. E essa alma tem que estar preenchida por  alguma coisa, não sei o quê exatamente.</p>
<p><strong>P &#8211; Você busca muito esse  processo interior, não é, Inês?</strong><br />
R &#8211; É, acho que ele tem que  existir. Os caminhos são loucos. Você pode estar com o seu interior  alimentado por uma coisa que não tem nada, absolutamente nada a ver com o  que está fazendo  na cena. Se é uma coisa que você descobriu lá, na sua  escavação, ela te serve para um momento em que você tem que estar  preenchida por alguma coisa. É doido isso, não dá para explicitar. Mas  não pode estar vazio. E tem que ser de verdade.</p>
<p><strong>P &#8211; Existe um fascínio em viver  uma outra vida, um outro ser, um outro olhar? Ser atriz é também a  possibilidade de viver coisas que você não seria?</strong><br />
R &#8211; Cada  vez mais, isso a experiência me trouxe, busco respeitar o que  estou  tocando. Sinto que quando toco um personagem entro em contato com uma  cadeia ancestral de histórias. Então, tem que pedir licença mesmo e  pedir ajuda. Li uma vez que uma contadora de história estava narrando  uma história quando sentiu uma mão cutucando o pé dela. Aí, ela olhou  para baixo e percebeu que estava em cima dos ombros de uma mulher velha.  Ela se assustou e falou ‘meu Deus, eu não posso estar nos ombros da  senhora, por favor, passe aqui para cima&#8221;. A mulher respondeu assim,  ‘não, pode ficar tranqüila, porque abaixo de mim tem uma mais velha  ainda&#8221;. Ela estava em cima dos ombros de uma mais velha, de uma mais  velha, de uma mais velha&#8230; Existe uma cadeia. Acho maravilhoso você  poder entrar numa história, dar vida a um personagem, que não é a minha  história mas que vai trazer elementos da minha vida para que seja de  verdade &#8211; elementos internos. E essa minha vida está ligada a milhões de  outras, é uma cadeia. Não sei se é muito metafórico, mas isso a  experiência me deu. Acho um grande encantamento pegar um personagem, e  trato com o maior respeito, defendo muito, como uma entidade mesmo.</p>
<div id="attachment_181" class="wp-caption alignleft" style="width: 199px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto05-Adalberto-Lim.jpg"><img class="size-full wp-image-181" title="inespeixoto05-Adalberto-Lim" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto05-Adalberto-Lim.jpg" alt="" width="189" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;A partir do momento em que entrei para a escola, comecei a estudar teatro e a conhecer as pessoas, tomei isso como um caminho para a minha vida.&quot; <em>Foto: Adalberto Lima</em></p></div>
<p><strong>P &#8211; Outra questão interessante  de abordar é o confronto entre o drama e a comédia. Há atrizes que  ficaram marcadas por serem mais dramáticas, outras são vistas apenas  como comediantes. Você transita nesses territórios com a mesma vontade, a  mesma aptidão?</strong><br />
R &#8211; Eu já fiz papéis dramáticos e tenho uma  ligação forte com a comédia. Sou meio ‘palhacenta´sabe? Tenho uma cabeça  que adora pensar brincadeiras, enxergo muito o humor das coisas, mesmo  que seja negro. Tenho uma ligação interessante com a comédia, gosto  muito da comédia. Gosto do drama também. Tenho tido a felicidade de  exercitar esses dois, a tragicomédia, a comicidade trágica, sei lá,  misturar, passear em todas as praias. Às vezes, você fica presa a um  estilo de trabalho. Acho legal poder transitar por esses vários  territórios, em trabalhos mais naturalistas, trabalhos mais  experimentais. É uma sorte que eu tenho.</p>
<p><strong>P &#8211; Em sua experiência, a  improvisação é um recurso que tem lugar? Existem atrizes que não  concebem muito o improviso e alguns diretores acham que não passa de uma  deturpação do texto.</strong><br />
R &#8211; A improvisação é bacana quando ela  realmente acontece, quando existe uma situação que provoca isso e não é  algo gratuito. Se o ator tiver a presença de lançar mão de uma situação  que se torne interessante para uma improvisação, acho isso genial.  Existem também espetáculos em que você joga com a platéia o tempo  inteiro, essa é a proposta. Mas se for um espetáculo fechado, acho que o  grande barato está em aproveitar situações para poder improvisar e não  usar isso como uma muleta, sempre buscar onde você pode improvisar.</p>
<p><strong>P &#8211; Aí deixa de ser improvisação  para ser uma coisa premeditada, não?</strong><br />
R &#8211; É. Às vezes, no  próprio processo de criação de um espetáculo você descobre janelas  propícias para várias coisas, para ‘cacos´, que podem enriquecer  bastante um espetáculo. Acho que o improviso é genial quando decorre de  uma situação, não é premeditado. Aconteceu,  o cara  pegou aquilo e  transformou.</p>
<p><strong>P &#8211; Queria chegar a </strong><em><strong>O  Crime da Atriz</strong></em><strong> em que a personagem em cena não só  improvisa como arrebata o papel principal. Como você analisa a atitude  dessa atriz?</strong><br />
R &#8211; Acho genial a coragem da personagem. Ela  não premeditou aquilo, ela vem de uma vida tão frustrada, sem chances,  com pessoas do lado dela que têm toda chance e não estão dando a mínima  importância&#8230; Às vezes, a gente passa por isso na vida, não é? Tanta  gente que está fazendo o que você queria fazer e está fazendo de uma  maneira mal-feita, de qualquer jeito. E você a fim de fazer, a fim de  construir, de ter uma oportunidade. Ela estava louca para construir uma  personagem, querendo ter uma chance para exercitar a aptidão, o sonho  dela. Não acho mesmo que ela premedita. Ela entra ali e  se vê num  estado de agitação, começa a fazer tudo, aquela loucura. Tem um  rompante, em que transforma toda a história para o ponto de vista dela.  Acho genial isso, porque além de ser essa coisa da transgressão como  atriz é interessante sob outros aspectos. Você vê profissionais em todas  as áreas que poderiam fazer alguma coisa mas não fazem. Por uma máquina  burocrática, as pessoas que poderiam mexer as águas paradas não mexem e  uma pessoa que teria<strong> </strong>a capacidade para isso se vê  engessada. Ninguém tem coragem de quebrar e ela faz isso. Acho que  várias atrizes que assistem ao filme devem falar assim, ‘eu fui  vingada´. E de outras profissões também, como se as pessoas dissessem,  ‘ela fez o que eu queria ter feito´.</p>
<blockquote><p>&#8220;Acho genial a coragem da personagem de O Crime da Atriz.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>P &#8211; Há momentos em que a  percepção que o ator tem de um personagem diverge totalmente da  concepção do diretor, como é o caso no filme. Várias atrizes relatam  conflitos na relação com os diretores. No seu caso, existiu esse tipo de  conflito? Ou o fato de você estar num grupo como o Galpão, em que  existe uma maior inserção do ator, mais voz ativa, evita esse confronto?</strong><br />
R  &#8211; Acho o diretor uma peça fundamental. Acredito cada vez mais que o  teatro bem feito, a televisão bem feita ou o cinema bem feito dependem  muito do coletivo. Para você criar um personagem, é preciso ter várias  pessoas &#8211; o historiador que deixou material pela vida para você  pesquisar, o cara da luz, o diretor que é um olho de fora no seu  trabalho&#8230; Acho que esse conflito existe sim. É claro que, às vezes,  você tem um ponto de vista diferenciado do seu personagem. Mas esse  embate é bom também. Às vezes, se o diretor não cede, você tem que fazer  o personagem de uma maneira que está mais conectada com a visão do  diretor. Aí é a hora de você achar a transgressão interna, criar um  movimento interno, uma fuga interna, para conseguir encarar aquele  trabalho de maneira salutar para você.</p>
<p><strong>P &#8211; Com sua experiência  diversificada, no teatro de rua e de palco, você pode contar algumas  histórias marcantes que viveu ao longo desse tempo?</strong><br />
R &#8211; São  muitas histórias. Por exemplo, <em>Romeu e Julieta</em> em São Paulo,  quando a gente estreou. Ver o Zé Celso (Martinez Corrêa) sentado na  Praça da Sé assistindo <em>Romeu e Julieta</em>&#8230; Vários anos depois,  encontramos o Zé Celso no Festival de Inverno de Ouro Preto, ele  assistiu um Brecht nosso &#8211; <em>Um homem é um homem</em>. Ele subiu no  palco, abraçou todo mundo, é uma figura muito emblemática do teatro  brasileiro. A própria Tônia Carrero já esteve sentada num banco na praça  dos Correios, assistindo <em>Romeu e Julieta</em>, ela toda linda,  vestida de seda, no Rio.</p>
<p><strong>P &#8211; Vocês interagiram com  pessoas da rua também?</strong><br />
R &#8211; Muito. Uma vez, em Ouro Preto, o  espetáculo estava super concentrado e uma mulher que estava bêbada, uma  mulher de rua, começou a gritar. A gente ficou naquela saia justa porque  a rua é um espaço da liberdade. Você está fazendo um espetáculo de rua e  se uma figura da rua, desequilibrada, começa a gritar, é difícil. Mas  eu estou na rua, estou invadindo ali também! Aí, a própria audiência, o  próprio público começou a tirar a mulher. Foi uma situação muito  estranha porque a gente estava na rua, a gente estava no espaço dela. De  repente, ela estava bêbada e incomodando quem estava vendo o espetáculo  também. Era um nó na cabeça das pessoas. Aquela situação mais maluca e a  gente manteve, conseguiu chegar até o fim. Cachorro entra muito no meio  do espetáculo na rua e tem o tempo também, não é? A gente já parou  várias apresentações por causa de chuva. Uma vez, na Venezuela,  estávamos num festival itinerante,  fomos a Caracas e várias cidades do  interior da Venezuela. A gente foi numa cidadezinha, já entrando na  floresta.amazônica. Estávamos apresentando o espetáculo num lugarejo e  tinha umas cem pessoas. Caiu um temporal no meio da peça. Eles não  queriam ir embora. Nós saímos correndo para uma sede, tipo um centro  cultural. As pessoas não iam embora, queriam saber como é que terminava a  história. A gente falou, então, vocês sentam aqui no chão dentro do  galpão. Pegamos as cruzes, as latinhas de <em>Romeu e Julieta</em> e  acabamos de encenar a história.</p>
<div id="attachment_182" class="wp-caption alignleft" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto06-tvglobo.jpg"><img class="size-full wp-image-182" title="inespeixoto06-tvglobo" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto06-tvglobo.jpg" alt="" width="280" height="186" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;A câmera fotografa a alma. Você tem que estar repleto de alguma história, não pode estar vazio. A câmera entra no olho e o olho é uma janela para a alma mesmo.&quot;<em> Foto: TV Globo/Divulgação</em></p></div>
<p><strong>P &#8211; São situações bem  diferentes&#8230;</strong><br />
R &#8211; Vou até contar uma outra experiência. Nós  já fizemos um Molière numa plataforma de petróleo, na P-26, da  Petrobras. Uma experiência sensacional. A gente não podia levar o  cenário, evidentemente, porque tem um limite de peso. Levamos só um  figurino, os instrumentos. Fomos em dois helicópteros. Foi uma  experiência muito emocionante porque lá tem um pequeno auditório em que  cabem trinta pessoas. Fizemos duas sessões de <em>Um Molière Imaginário</em> naquele auditório. Eram os personagens só com a maquiagem, os  figurinos, sem cenário. E eles ali com a gente. Foi muito emocionante! A  gente brincou -a Belinha, quando entra em cena, vem a cavalo, aí eu  arrumei um equipamento de mergulho, como se tivesse vindo do fundo do  mar, brincadeiras assim. A gente usou para ‘cacos&#8221; a situação de estar  em alto mar e foi uma experiência linda. As pessoas não têm idéia,  aquilo é uma cidade em alto mar. São várias plataformas, eles têm um  tempo lá e um tempo em terra. Com esse apoio da Petrobras, excursionamos  pelo Brasil inteiro e achei muito legal ter podido ir onde é a  extração. Pernoitamos lá, tivemos contato com o estado de alerta que  eles vivem. A gente percorre quarenta minutos de helicóptero em alto mar  até chegar lá. Você vai olhando para o mar e parece que está indo para  outro planeta. Foi uma experiência muito interessante. Eu fiquei muito  emocionada pelo contato com eles.</p>
<p><strong>P &#8211; E nos palcos mais  tradicionais, quais as experiências mais marcantes?</strong><br />
R &#8211; Já  tivemos muitas emoções em teatros, como no palco do Globo Theatre, em  Londres. A gente pisa num palco que é sagrado, é muito forte isso.  Fizemos apresentações em palcos históricos do mundo. Existem teatros no  Brasil que em si já são uma experiência, como o Santa Isabel, em Recife,  o São Pedro, em Porto Alegre. Aqui em Minas, o teatro de Ouro Preto, o  teatro de Sabará.</p>
<p><strong>P &#8211; Outro aspecto no filme </strong><em><strong>O  Crime da Atriz</strong></em><strong> que chama atenção é a cena em que  ela é multada e recebe uma quantia mínima pela atuação na peça. Isso  remete à questão da sobrevivência dos profissionais de teatro. Como é  possível construir uma carreira profissional nessa área?</strong><br />
R &#8211;  Assim como as atrizes do Nordeste e do Sul, nós somos atrizes fora do  eixo Rio-São Paulo. Eu vivo profissionalmente de teatro desde 1992,  quando comecei a fazer um estágio na fundação em que estudava. Vivo  dentro das minhas possibilidades, tenho o que preciso e trabalho com o  que gosto e acredito.</p>
<p><strong>P &#8211; Você acha que o processo de  profissionalização de atores no Brasil ainda está por se completar ou já  é uma carreira estruturada?</strong><br />
R &#8211; É uma luta. A gente tem uma  vida financeira muito sazonal, vamos dizer assim. Tem época que você  trabalha com um pouco mais de abundância, se está em temporada, tem  viagens, convites. Falo dos atores comuns como eu, que não têm um  aparato televisivo. As pessoas que contam com esse aparato têm uma grana  a mais, pintam mais chances nesse mercado paralelo, ganham um pouco de  dinheiro com a propaganda, enfim. Se a gente for analisar a história,  sempre houve um apoio institucional ao teatro, sempre existiram pessoas  que fomentam, os mecenas. Isso sempre existiu. Atualmente, temos esses  problemas, a lei de incentivo funciona por um lado mas&#8230;</p>
<p><strong>P &#8211; Não existe uma estabilidade,  não é?</strong><br />
R &#8211; É, acho que você tem que combinar com você mesmo  que vai viver no risco. Todo mundo vive no risco, mas o ator vive num  risco maior.</p>
<p><strong>P &#8211; O fato de viver em Belo  Horizonte, fora do chamado eixo Rio-São Paulo,  limita uma atriz, tira  oportunidades de crescimento?</strong><br />
R &#8211; Eu tinha muita vontade que  se criasse um núcleo cinematográfico mais forte em Minas. Acho que  temos profissionais para isso, tanto na área de direção e na área  técnica do cinema, como também atores. A televisão também poderia  conseguir desenvolver um sistema de produção legal porque temos  capacidade para isso. Acho que falta uma articulação, sei lá, política,  de tentar fundar um pólo cinematográfico e televisivo, que empregue mais  atores, que nos dê a chance de também experimentar essa linguagem.</p>
<p><strong>P- A concentração da produção  cultural nos grandes centros restringe a riqueza e a diversidade  cultural que o país tem? Em outras palavras, dificulta o acesso do  público a outras visões, outras maneiras de ser e de ver?</strong><br />
R &#8211;  Eu viajo muito, então, tenho uma convivência com o que acontece no  Brasil. Talvez essa pergunta me abra para uma reflexão sobre isso. Acho  que realmente chega pouca coisa. Por exemplo, a gente vai no Sul, tem lá  a Casa de Cinema de Porto Alegre, com muitos filmes que não chegam até  nós. Eles fazem uma produção bacana de cinema. Assim como devem existir  outros pólos. Quando eu penso em Minas em termos de literatura, enxergo  um potencial enorme para transformar esse material em bons produtos  cinematográficos e televisivos. Quando se fala de direção, de escola, de  atores, a gente tem. É um sonho que a gente pudesse exercer mais essa  área. Estou falando como atriz. No teatro, a gente conseguiu, por  exemplo, com o Galpão &#8211; viajamos no Brasil, no mundo inteiro, eu consigo  dar vazão ao meu lado de atriz para o teatro maravilhosamente bem.</p>
<p><strong>P &#8211; Uma questão que gostaria de  perguntar é se o teatro de inspiração política, dos anos 60 e 70, deixou  alguma coisa em termos de dramaturgia ou foi algo muito datado? Existem  peças e encenações que marcaram a sua geração?</strong><br />
R &#8211; Existem  montagens emblemáticas dessa época, como <em>Eles não usam black-tie</em>,  e grupos que deixaram um legado muito bonito, como o Oficina e o Arena.  Eu peguei uma geração na frente e quando penso nessa época do teatro  imagino que deve ter sido muito triste o momento, mas também muito  engrandecedor para esses artistas. Deve ter sido muito bonito para eles a  maneira como conseguiram, debaixo de uma ditadura, dar o truque e fazer  cumprir essa função do teatro como um agente político, conscientizador,  instigador. Quando leio sobre isso fico com  um sentimento de saudade  de uma coisa que eu não vivi&#8230;</p>
<div id="attachment_183" class="wp-caption alignleft" style="width: 194px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto07-tvglobo.jpg"><img class="size-full wp-image-183" title="inespeixoto07-tvglobo" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/inespeixoto07-tvglobo.jpg" alt="" width="184" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Adoro minhas personagens! Sou uma leviana, apaixonada, tenho muito carinho... Cada uma delas é uma pedrinha que vou pondo nesse cestinho e guardando. É a história da minha vida.&quot;  <em>Foto: TV Globo/Divulgação</em></p></div>
<p><strong>P &#8211; E o que é o teatro hoje?  Vocês que transitam tanto, que acompanham e vêem festivais enxergam  alguma tendência, alguma coisa no horizonte?</strong><br />
R &#8211; Os  festivais me trazem um sentimento muito especial. Em várias partes do  mundo e do Brasil, a gente encontra centenas de pessoas agrupadas  pensando teatro. Cada uma com a sua tendência &#8211; os festivais normalmente  são muito variados. Vivemos uma época de liberdade de expressão, que  foi conquistada. Você pode falar de tudo, não há restrições.</p>
<p><strong>P &#8211; E dentro dessa liberdade,  você acha que há criação?</strong><br />
R &#8211; Há criação, sim. Quando  comecei nos anos 80, ainda existia censura, tinha que fazer apresentação  para os censores, às vezes cortavam partes. Ainda peguei um pouco isso  no início dos anos 80. Existiam grupos irreverentes, foi uma época da  proliferação do <em>Besteirol</em>, que acho uma delícia, adoro, grandes  atores trabalharam nessa linha. Depois, veio essa coisa do encenador,  da imagem muito forte, esse teatro imagético, corporal, todas as  linguagens&#8230;</p>
<p><strong>P &#8211; Há uma tendência  predominante ou hoje é um pouco de tudo hoje, com essa liberdade maior?</strong><br />
R  &#8211; Acho que hoje é um pouco de tudo mesmo. Numa época, era legal só o  teatro corporal, depois era aquela coisa do efeito, vários diretores que  apontaram para caminhos assim. O que eu sinto é um pouco de busca de  novas dramaturgias, uma busca mais latente. Parece que há uma negação,  raramente montam-se os clássicos. E os clássicos não são clássicos à  toa. Quando você vai ler um texto clássico, vê que é maravilhoso mesmo.  Mas eu sinto que existe uma investigação maior, vejo as pessoas tentando  caminhos diferentes mais na dramaturgia.</p>
<p><strong>P &#8211; É uma inquietação?</strong><br />
R-  Acho que teve um <em>boom</em> dessa coisa do poder do corpo e dos  efeitos de imagem. As pessoas já assimilaram um pouco essa linguagem.  Hoje, eu sinto uma busca&#8230;</p>
<p><strong>P &#8211; Você acha que existe uma  busca de temas nacionais, de temas que interfiram mais na realidade?</strong><br />
R  &#8211;  O mundo mudou muito nessas duas últimas décadas, acho que a gente  não está conseguindo expressar esse redemoinho de transformações  sociais, urbanas, comportamentais, éticas, ambientais&#8230; O ser humano  está sendo bombardeado por essas transformações.</p>
<p><strong>P -Você tem algum papel  predileto entre os inúmeros que já fez? Qual foi o que mais te deliciou?</strong><br />
R  &#8211; Nunca contei o número de personagens que fiz. Adoro as minhas  personagens! Sou uma leviana, apaixonada, tenho muito carinho&#8230; Por  exemplo, a Marília de Dirceu que fiz com Elza. Foi uma época em que eu  estava precisando muito fazer uma personagem mais delicada, mais  contida. E não sei por que cargas d&#8221;água, a Elza me chamou para fazer o  papel. Então, veio toda a pesquisa que fiz sobre a delicadeza da vida da  Marília e o personagem, que é pequeno no filme, mas que foi muito bom  para mim. Depois, gostei muito das duas personagens que o Luiz Fernando  Carvalho me chamou para fazer na minissérie <em>Hoje é dia de Maria</em>,  a Rosa e a dona Boneca. Elas tocaram muito fundo na minha alma. Eu  gosto muito da Maria, que faço no <em>Pequenos Milagres, </em>é um  personagem que me leva muito para a minha infância. Tenho um carinho  também muito especial pela senhora Capuleto, do <em>Romeu e Julieta</em>,  que foi o primeiro trabalho que eu fiz com o Gabriel Villela e com o  Galpão. Eu tinha uma grande admiração por ele, nunca havia sonhado  trabalhar com ele e coincidiu que a minha entrada no Galpão foi para  esse trabalho. Então, foi um personagem que me fez trabalhar com o  Galpão, que eu já admirava, e com o Gabriel Villela.</p>
<p><strong>P &#8211; Quer dizer, no fundo, são  todas as personagens&#8230;</strong><br />
R &#8211; É, tem várias, cada uma é  especial. A Belinha, do <em>Molière</em>, é linda, a Maria Madalena, e  aí vai para a Pamela, que foi o meu encontro com o Cacá Carvalho como  diretor. Cacá Carvalho, se a gente poderia dizer, é um cientista do  teatro. Ele põe o ator no tubo de ensaio e ele te ferve, ele te pipeta,  ele faz tudo. E isso é maravilhoso. Ele mudou a minha forma de enxergar.</p>
<p><strong>P &#8211; Um viva a todas as  personagens, então.</strong><br />
R &#8211; Essa personagem de <em>O Crime da  Atriz</em>, a Ismênia, é tudo de bom que a Elza podia ter me dado. É um  presente, porque ela concretiza uma loucura que, muitas vezes, eu tive  vontade de fazer, de chegar a chutar o balde, fazer do jeito que eu  sentia. Nossa, então, é um presente você poder exteriorizar isso através  de uma personagem. Adoro também. Eu diria que é como se eu tivesse um  frasco, um cestinho em que eu guardo pedrinhas preciosas. Cada uma delas  é uma pedrinha que vou pondo nesse cestinho e vou guardando. É a  história da minha vida.</p>
<p><br class="br" /><br />
<a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/" target="_blank">Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento</a></p>
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		<title>Uma mistura de talento e exuberância</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 03:44:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

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		<description><![CDATA[O nome completo é Marisa Domingos Orth,  uma combinação do alemão Orth e do italiano Domenica, transformado em  Domingos no pós-guerra. Ou seja, uma &#8220;mistura nazi-fascista&#8221;, como a  atriz Marisa Orth gosta de brincar ao mencionar sua origem. Na verdade, o  lado italiano &#8211; calabrês, precisamente &#8211; é muito mais predominante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_150" class="wp-caption alignleft" style="width: 191px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/marisaorth01-bruno-prada.jpg"><img class="size-full wp-image-150" title="marisaorth01---bruno-prada" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/marisaorth01-bruno-prada.jpg" alt="" width="181" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">Para ela, representar é uma missão  <em>Foto: Bruno Prada</em></p></div>
<p>O nome completo é Marisa Domingos Orth,  uma combinação do alemão Orth e do italiano Domenica, transformado em  Domingos no pós-guerra. Ou seja, uma &#8220;mistura nazi-fascista&#8221;, como a  atriz Marisa Orth gosta de brincar ao mencionar sua origem. Na verdade, o  lado italiano &#8211; calabrês, precisamente &#8211; é muito mais predominante em  sua figura exuberante e loquaz.</p>
<p>A conversa com essa atriz que ostenta um  sucesso incontestável na carreira é permeada por inquietações  artísticas e pessoais. Sua trajetória inclui personagens íntimos do  público de televisão, como a Nicinha, de <em>Rainha da Sucata, </em>e<em> </em>a Magda, do humorístico <em>Sai de Baixo</em>, assim como outras  tantas experiências no teatro e no cinema. Sem esquecer sua <em>performance</em> em espetáculos musicais, uma de suas paixões recorrentes.</p>
<p>Marisa considera sua profissão  profundamente democrática e vê o teatro como um ambiente inigualável em  termos de exercício da democracia. &#8220;Uma escola linda&#8221;, define. &#8220;Gosto  muito de momentos em que as pessoas criam outras leis, em que se  igualam, em que você apascenta as diferenças e encontra outra maneira de  estar com as pessoas&#8221;, explica, na conversa que se estendeu por mais de  uma hora, no Rio de Janeiro.</p>
<p>&#8220;Ator é louco para saber de tudo&#8221;,  diverte-se Marisa, ao observar que os atores no Brasil dão palpites  sobre qualquer assunto &#8211; &#8220;criação de palmito, física nuclear&#8230;&#8221; Ela  também fala abertamente sobre todas as coisas, desde a convicção de que  nasceu atriz às restrições que a desigualdade social impõe à cultura  brasileira. A entrevista que concedeu pode comprovar que, pelo menos no  seu caso, a atriz tem muito a dizer.  (<strong>Beth Cataldo</strong>)</p>
<blockquote><p>&#8220;Eu sabia que era atriz. Nasci assim. Quem nasce atriz nasce atriz.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>Pergunta &#8211; No passado não muito  recente, as atrizes eram estigmatizadas e cercadas de preconceitos. Para  você, o que significa ser atriz hoje?</strong><br />
Resposta &#8211; Eu acho  que continua o estigma, de uma certa maneira. Tem a coisa de ser  célebre. Vejo muito o ator reclamando disso &#8211; ‘ah, pinta em um mês e já,  já está na novela com você.´ Mas temos que entender o público como se  fosse um marido. Deixa ele ter as amantes, a gente é o amor verdadeiro.  Quando faltar, ele vai chamar por nós, ele gosta da gente. Tem que ter  paciência, é uma coisa bem feminina.</p>
<p><strong>P &#8211; Os atores e atrizes que  ficam também não são tantos, não?</strong><br />
R &#8211; É claro que cada um  tem seu caminho. Tem pessoas que explodem em segundos e ficam &#8211; gente  que queria ser artista e, mais do que isso, tinha talento, humildade. É  uma profissão extremamente democrática.</p>
<p><strong>P &#8211; E o estigma?</strong><br />
R &#8211;  As coisas estigmatizam. Uma que as pessoas acham que a gente é falsa, é  mais ou menos voz corrente. Se você chora, está mentindo. Você escuta  isso de pretendente, de namorado. Eu acho o contrário. Ator é um bicho  tão verdadeiro que faz até mentira parecer verdade. Nós costumamos ser  mais sensíveis do que o normal. É paradoxal pra caramba. A gente é super  sensível, porém, lida com as emoções. E é uma mentira dizer que o nosso  trabalho é cardíaco, o nosso trabalho é cerebral. Os atores que eu  admiro, quando converso com eles, é cabeça. Na hora da desgraça, vejo o  engenheiro surtado embaixo do canto, o advogado dando com a cabeça na  parede e o ator encomendando o caixão.</p>
<p><strong>P &#8211; Você acha que representar é  um dom?</strong><br />
R &#8211; Acho que é uma missão. Ou é uma coisa de outra  encarnação ou é uma neurose muito precocemente adquirida, o que pode ser  também.</p>
<p><strong>P &#8211; É muito comum ouvir das  atrizes que desde crianças sentiam esse impulso de representar.</strong><br />
R  &#8211; Eu sabia que era atriz. Nasci assim. Quem nasce atriz nasce atriz.  Quando as minhas amigas falavam que não queriam ser atrizes, isso  criança, eu achava que elas estavam mentindo. Ah, veterinária&#8230; podendo  ser atriz, quer ser veterinária?! Eu não conseguia acreditar.</p>
<p><strong>P &#8211;  E na família foi difícil?</strong><br />
R  &#8211; Meus pais são muito cultos, extremamente cultos. Eles têm prazer pela  cultura. Eu me lembro da cara deles de prazer chegando depois de uma  peça boa. E aí eles jogavam os programas no sofá e eu pegava para ler.  Gostavam muito, e gostam até hoje, de teatro, artes, literatura. Eles se  conheceram trocando livros e tal. Não tive essa sorte. Mas vamos dizer  que eles gentilmente me obrigaram a fazer uma faculdade. Eu morava na  casa deles, o começo de carreira de atriz é bem difícil.</p>
<p><strong>P &#8211; Você atuou como atriz desde o  início?</strong><br />
R &#8211; Comecei com dezoito anos, no primeiro ano da  Escola de Arte Dramática. Meus pais tinham dinheiro, eu não precisava  trabalhar. Mas eles falaram que se eu quisesse continuar morando com  eles deveria me formar. Então, eu fazia Escola de Arte Dramática à noite  e Psicologia de dia. No terceiro ano da faculdade, eu já estava fazendo  peça, ganhando prêmio, tinha uma banda e disse que ia trancar o curso.  Foi quando eles disseram, olha, se você trancar, você sai. Foi a única  vez que recebi uma pressão. Minha mãe só queria que eu fizesse a Escola  de Arte Dramática &#8211; se eu ia ser atriz, tinha que ser na EAD. Aí, eu  entrei. Mas tinha essa pressão. Em geral, era um cuidado. Quer dizer, se  for uma loucura, se for um delírio, se não der certo, se ela não for  aceita, se ela não for amada&#8230; Porque tem muito isso, não é? Mas essa  foi a única pressão.</p>
<p><strong>P &#8211; Não foi nada tão dramático.</strong><br />
R  &#8211; Não, perto do que escuto por aí sobre o começo de vida das outras  pessoas, até que foi muito bom. Na verdade, é muito louco porque eu fui  muito patricinha. Não, patricinha não, era moderna e tudo&#8230; Mas eu  ganhei carro do meu pai quando fiz dezoito anos. Morei numa bela casa,  tinha empregado, tinha motorista. Às vezes, vejo garotas novas, lindas, e  você fala ´ah, garotinha, chegou agora`. Vai ver, a menina era modelo  desde os doze, foi morar em Tóquio aos quatorze, sustentou a mãe! Eu não  sei o que é isso. Estava falando que a profissão é democrática, então,  eu parei de criticar as moças. Tem uma que a mãe era puta, entende? São  novinhas, bonitinhas, mas vai pegar a história delas. Uma vez eu estava  uma roda de garotas super jovens, super lindas, falando da vida delas, e  fiquei bem quieta.</p>
<blockquote><p>&#8220;O pessoal acha que é muito divertido fazer cena de sexo e é um horror. Uma semana antes, a gente fica desesperada porque vai ter cena de sexo.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>P &#8211; Mas você falava sobre o  estigma das atrizes&#8230;</strong><br />
R &#8211;  Tem o estigma de que a atriz é  falsa, tem o estigma de que a atriz é fácil, porque ainda pega o negócio  de beijar na boca de qualquer um, é incrível. Fico chocada, mas tem. O  pessoal acha que é muito divertido fazer cena de sexo e é um horror. Uma  semana antes, a gente fica desesperada porque vai ter a cena de sexo. E  atire a primeira pedra a atriz que faz isso muito à vontade porque é  dificílimo. `Ah, mas se você tiver tesão pelo&#8230;´ piorou! Graças a Deus,  por obra do Divino, eu nunca estive em situações assim. Porque se você  tem algum interesse na pessoa, aí é mais constrangedor, é horrível. A  gente tem essa separação do corpo, por obrigação. Não que a gente seja  devassa, não é nada disso. Dá muito bem para você beijar e não estar  beijando. Assim como existe a situação na vida em que você está sentada  perto da pessoa, sem nem tocar, e está rolando um clima absurdo! Pelo  amor de Deus., é incrível que as pessoas não acreditem nisso. Então, o  estigma da falsa, o estigma da fácil e a fama. A fama é outro estigma.</p>
<p><strong>P &#8211; O que seria?</strong><br />
R &#8211;  É a solidão, é a solidão. Um dia, eu ainda vou fazer um lar ‘Michael  Jackson´ para abrigar famosos em desespero.</p>
<p><strong>P &#8211; Isso é porque os horários  são loucos, o ritmo de vida é outro?</strong><br />
R- É porque você está  em destaque, fama. Fama é diferente. E destaque, o nome já diz, é  separada. Destaque aqui, é separada. Não tem idéia se as pessoas estão  correndo atrás de você para te bater ou pra te beijar. Só sabe que as  pessoas estão de um lado e você está de outro.</p>
<p><strong>P &#8211; É uma onda que pega em algum  momento?</strong><br />
R &#8211; Já teve final de semana em que eu fazia peça  de quinta a domingo e show de sexta a domingo. Umas cinco mil pessoas  tinham me visto naquele final de semana. Segunda-feira de manhã, você  fala, vou escovar o dente pra quê? Não tem ninguém olhando&#8230; A pressão  de fora para dentro é muito maior hoje do que era no meu tempo, quando  ainda contava mais de dentro pra fora. Eu tenho vinte e cinco anos de  carreira e não sei como seria começar hoje. É muito mais forte a pressão  midiática hoje. Tem muito mais<em> paparazzi</em>, muito mais matéria,  uma indústria que fala sobre a vida do ator. Acho que a gente iria ficar  muito insegura, porque atriz é muito insegura.</p>
<p><strong>P &#8211; São personalidades que se  tornam mais complexas por causa da profissão, não? Para lidar com isso  tem que ter muito equilíbrio ou muito desequilíbrio?</strong><br />
R &#8211; Tem  que ter muita humildade. Assim como Bill Gates veio ao mundo para  provar que é generoso, o ator, o famoso, tem que ser humilde. A dona da  quitanda pode morrer achando que é Cleópatra, eu, não. Vou para um  hospício se achar. Outra coisa ainda sobre o estigma da atriz são os  horários. A gente trabalha de noite, gosta de dormir tarde e precisa.  Trabalha para os outros se divertirem. A gente tem folga na segunda e  terça, quer farrear e beber na segunda-feira e não tem ninguém. Aí o  povo vai viajar no final de semana e você vê aqueles carros indo&#8230;. É o  dia do serviço para nós.</p>
<p><strong>P- Como parte de uma geração de  atrizes ligadas à comédia, você se considera herdeira da linhagem que  vem com o teatro de revista, com as comédias de costume cariocas?</strong><br />
R  &#8211; Eu me formei uma atriz dramática, absolutamente dramática. Era famosa  na EAD porque fazia tragédia. A primeira peça que eu fiz foi <em>Fausto</em>,  de Goethe, a segunda foi um apanhado de cenas de Nélson Rodrigues. E eu  sempre fazia as mães, nunca fiz as Glorinhas, nunca fiz as Julietas.  Não era uma questão de idade. Aí, fiz a peça <em>Fica Comigo esta Noite</em>,  que era uma tragicomédia, e que refiz, vinte anos depois. A gente pegou  uma geração que é o nascimento do besteirol &#8211; Asdrúbal, Mauro Rasi,  Vicente Pereira, em São Paulo, Naum Alves de Souza&#8230;</p>
<p><strong>P &#8211; O Asdrúbal é um pouco antes,  não?</strong><br />
R- Pouquinho. Tudo faz parte da mesma leva. Foi uma  revolução que a gente está perdendo, está voltando para trás.  Descobriu-se que era possível falar de temas sérios numa comédia. Isso  foi uma enorme liberdade estilística. Saiu do ‘teatrão&#8221; &#8211; ou vamos fazer  uma tragédia ou vamos fazer uma comédia. Você podia estar vendo uma  comédia e, de repente, seu peito apertar e ter vontade de chorar. Como  na vida. Isso é que é bacana. Então, sinto que nos anos 80 havia mais  liberdade de estilo do que temos  hoje. A gente está voltando de novo  para essa coisa da comédia ou tragédia. Tive a chance de fazer a peça <em>Fica  Comigo esta Noite</em> nos anos 80 e em 2007, 2008. Mas é comédia ou é  tragédia, as pessoas vêm me perguntar. Em 80, não tinha essa pergunta.</p>
<p><strong>P &#8211; Esses compartimentos afetam a  forma de representar?</strong><br />
R &#8211; De alguma maneira, a minha  geração tem muitas boas atrizes da minha idade. Deu uma leva que é  fantástica! Débora Bloch, Beth Coelho, Denise Fraga, Fernanda Torres,  Cláudia Raia, Giulia Gam, a Julinha Lemmertz, a Cortez, a Drica Moraes, a  Andréa Beltrão&#8230; Tem altas atrizes, uma melhor do que a outra. E todas  fazem comédia e fazem tragédia. Eu me considero uma dessas também. Faço  tragédia muito bem. Só que Deus quis que eu fizesse muita comédia. Fui  fazer a novela do Sílvio de Abreu, <em>Rainha da Sucata,</em> que era a  primeira aposta dele numa novela de humor no horário das oito. Descobri  na televisão que era engraçada.</p>
<div id="attachment_149" class="wp-caption alignleft" style="width: 195px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/marisaorth03-marcio-de-so.jpg"><img class="size-full wp-image-149" title="marisaorth03---marcio-de-so" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/marisaorth03-marcio-de-so.jpg" alt="" width="185" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;De repente, a minha vida mudou, fui ficando alguém que as pessoas olham e dizem ´mas só a sua cara, a gente olha e morre de rir...` De repente.&quot; <em>Foto: Márcio de Souza/TV Globo</em></p></div>
<p><strong>P &#8211; Então, foi com Nicinha, a  sua personagem na novela?</strong><br />
R &#8211; Nicinha. Eu era engraçada na  EAD quando fazia os exercícios de voz, exercício de sotaque. Mas humor é  o que eu fazia para as minhas primas darem risada, que eu fazia lá em  casa. Jamais imaginei que ia viver disso. De repente, a minha vida  mudou,  fui ficando alguém que as pessoas olham e dizem ‘mas só a sua  cara, a gente olha e morre de rir&#8230;´ De repente. E eu fui criada por  esquerdistas, tive uma formação muito de esquerda. Então, eu sou a  praticante do ópio do povo. Eu virei marionete do sistema, fantoche da  ditadura.</p>
<p><strong>P- É uma boa oportunidade para  perguntar sobre o teatro de inspiração política dos anos 60 e 70.</strong><br />
R  &#8211; Eu fui ao teatro TUCA com a minha mãe e ela falou ‘aqui eu vi <em>Morte  e Vida Severina, </em>eu quero que você faça <em>Morte e Vida Severina</em>´.  Eu ouvi isso.</p>
<p><strong>P &#8211; Você acha que esse teatro é  algo datado?</strong><br />
R &#8211; Acho. É doloroso porque eu tive uma  formação para ser a séria, a cabeça, a paulista, a <em>cul</em>t. Eu  virei <em>pop</em>, estrondosamente <em>pop</em>. Daí, aprendi a fazer  comédia com o povo do Rio &#8211; e é subúrbio do Rio. Não tem ninguém mais  engraçado. O povo do subúrbio do Rio bota o resto no bolso. Denise Fraga  é de Lins de Vasconcelos, Adriana Esteves é do Meier, Miguel Falabella é  da Ilha do Governador, Cláudia Jimenez é do Rio Comprido&#8230;</p>
<p><strong>P &#8211; E você, paulista  quatrocentona.</strong><br />
R- Quatrocentona não, nova rica. Neta de  imigrantes, nova rica. E eu fiz a primeira novela  &#8211; ai, ai, meu Deus &#8211;  me sentindo já traindo os meus amigos. As pessoas de São Paulo torcendo o  nariz para mim, eu estourada de sucesso na rua! Fiz uma peça logo em  seguida, com o José Wilker, Miguel Falabella, Mônica Torres e Luis  Salem, chamada <em>Algemas do Ódio</em>, que era um comediaço. Fomos  pelo Brasil e eu sofria, sofria, porque estava traindo os meus ideais  &#8230; e <em>Fausto</em>, de Goethe, e as peças alemãs que eu tinha  guardado para fazer? Enquanto isso, eu estava fazendo uma banda, a Luni,  compondo coisas totalmente <em>pop</em>, já de lingerie, não sei o quê.  Mas ainda era mais cabeça. Com a Vexame, fiz uma banda de música brega.  Era música brega mesmo. E não era MPB, era MBPBB &#8211; Música Bem Popular  Bem Brasileira!</p>
<p><strong>P- Você transgrediu muito, não?</strong><br />
R-  Muito, porque eu saí do <em>cult</em> para o<em> pop</em>. Os meus pais  até hoje ficam em dúvida. Porque a esquerda brasileira, eu vi. Tenho  sítio em Ibiúna, eu vi. O Serra tem casa lá, o Fernando Henrique, o  Gregório, o Lemos, todos. Mas vi também os Diniz, os Bresser Pereira.  Eles eram mais ou menos do mesmo grupo. Fui vendo a geração dos meus  pais, lendo muito <em>Pasquim </em>e declamando. A gente fazia  (cantarola) ‘hoje você é quem manda&#8230;&#8221; O showzinho que a gente fazia em  Ibiúna era mímica dessa música. Eles foram ficando ricos, subindo na  vida. E aí eu via léguas de ardósia, as casas aumentando a ardósia,  aumentando o tijolinho à vista e as samambaias. Só depois que eu entrei  na carreira é que eu comecei a ver veludo, som de madeira, cristal,  achei tão bacana. Achei bom, porque o rico de esquerda é muito culpado.</p>
<p><strong>P-  Foi esse tipo de conflito  que apareceu quando você fazia a peça </strong><em><strong>Algemas do  Ódio</strong></em><strong>?</strong><br />
R &#8211; Eu sofria muito, um drama,  um problema de consciência. Até que um dia o Miguel (Falabella) virou  para mim e falou ‘vem cá, você quer que a gente instale umas canaletas,  que comece a nevar para que você se sinta num filme do Bergman quando  entrar em cena?´ O Miguel foi um grande mestre para mim. E com os  cariocas eu aprendi o ‘joga fora´.  Comédia a gente joga fora. Diz o  texto, lá, lá, e joga fora. Coisa que carioca sabe fazer. Eu descobri  que graça é uma coisa que se acha, a pessoa acha graça. Se você  demonstra, ela não acha. Fui aprendendo. Peguei um cearense também, Tom  Cavalcanti &#8211; cearense também é bom de comédia. Aí, a comédia foi  entrando na minha vida, eu descobri que era boa nisso.</p>
<blockquote><p>&#8220;Comédia não se aprende. Você conhece alguém da sua família que não sabe contar piada e começou a contar bem piada?&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>P- Você tem o famoso tempo da  comédia. Aliás, como você define esse tempo?</strong><br />
R &#8211; Um ritmo. É  uma coisa musical. É muito exato. Por isso é que se costuma dizer que  comédia é mais difícil do que drama. E porque não se aprende. Você  conhece alguém da sua família que não sabe contar piada e começou a  contar bem piada?</p>
<p><strong>P &#8211; Não, mas mesmo assim insiste  em contar.</strong><br />
R- Exatamente, toda família tem uns dois, três.   Lá vem de novo&#8230;</p>
<p><strong>P &#8211; O seu lado musical te ajudou  como atriz? Ajuda ainda?</strong><br />
R &#8211; Sim, ajuda muito. Eu acho que  não existe bom ator sem ouvido musical.</p>
<p><strong>P &#8211; Por causa do ritmo?</strong><br />
R-  E do ouvido. Assim como pela nota musical da frase. Porque um cara que  não tem ouvido musical, quando o diretor fala ‘mais doce´, ele abaixa o  volume. Não, ‘mais forte´, ele aumenta o volume. Mas a seqüência de  notas da frase ele não é capaz de mudar.</p>
<p><strong>P &#8211; No teatro, é possível  perceber bem o grande alcance da sua voz, mas  muitas atrizes não tem  essa capacidade, não?</strong><br />
R &#8211; Mas são boas atrizes assim mesmo.  Nara Leão também não tinha uma ‘vozona´.  Tem que ter ouvido, mais do  que voz &#8211; sensibilidade auditiva. Quando você ouve duas atrizes  francesas falando, às vezes têm uma notinha. É ouvido musical.</p>
<p><strong>P &#8211; E as diferenças de atuação  no teatro, na TV e no cinema? Muitas atrizes se queixam da ditadura do  ‘menos</strong>&#8220;<strong> nas telas, dessa tendência de minimizar a  interpretação.</strong><br />
R &#8211; Eu acho que é tudo meio igual. A gente  tem que imitar outra pessoa. Isso aí é igual. Os atores jovens dizem, às  vezes, que querem ser de televisão e não de teatro. Eu acho que já está  errado. Ser ator é ser ator. É imitar outra pessoa. É viajar e fazer  todo mundo acreditar que você é outro. Aí, você tem a técnica, diminui o  volume, diminui o gesto, diminui o tom e cola no diretor. Cinema é a  arte do diretor. Quando você vai assistir a um filme, assiste como um  espectador, reza para o cara ter te dirigido bem. Você grava o fim,  depois o meio, depois o começo, depois só aqueles dois segundos em que  você fica três dias para fazer, depois vinte minutos em meia hora.</p>
<p><strong>P &#8211; Você não tem domínio algum,  não é?</strong><br />
R- Você tem muito pouco.</p>
<blockquote><p>&#8220;Qualquer trabalho em televisão, por melhor que seja, te piora como atriz, porque você não ensaia.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>P &#8211; E o teatro é a arte do ator,  como se costuma dizer?</strong><br />
R &#8211; É. Teatro é delícia. Primeiro,  porque você estuda, pode repetir. É como um quadro, você ensaia dois  meses. Aqui eu vou fazer esse gesto, aqui eu vou fazer essa boca, aqui  não sei o quê lá. Você apresenta um trabalho mais bem-acabado, ensaiou  dois meses aquilo, três, às vezes. Eu sempre digo que qualquer peça que  você faça, por pior que seja, sai melhor atriz. Você aprende melhor,  porque você melhora ao ensaiar. E qualquer trabalho em televisão, por  melhor que seja, te piora como atriz, porque você não ensaia.</p>
<p><strong>P &#8211; Você acaba se repetindo?</strong><br />
R  &#8211; Acaba criando uma casca grossa, vai no bolso do colete. Vai fechando  os caminhos que você abriu, aquelas veredas vão se cobrindo de mato.  Aquela estrada que você &#8230;.ih, o mato cobriu, não sei mais chegar lá.  Você só fica no centrão. Você vai no seu fácil.</p>
<p><strong>P &#8211; O teatro é o território para  se arriscar mais?</strong><br />
R &#8211; Teatro é a pós-graduação do ator. É  onde você estuda, onde você melhora..</p>
<p><strong>P &#8211; O filme </strong><em><strong>O  Crime da Atriz</strong></em><strong> mostra pequenos truques de  interpretação e os improvisos da personagem para obter um papel mais  amplo. Isso existe na prática?</strong><br />
R &#8211; Existe. Mas eu sou tão  pretensiosa ou tão ingênua &#8211; outro paradoxo. Eu acho que tenho de me  dirigir ao público. Meu inimigo ou amigo está na minha frente. Eu não  consigo perder o meu tempo achando que o do lado&#8230; Às  vezes, não  percebo que estão tentando me derrubar. Mas não sou boa para falar desse  assunto porque eu não noto.</p>
<p><strong>P &#8211; E a improvisação?</strong><br />
R  &#8211; Improviso pouco, muito pouco. Sou operária-padrão. Acho um barato  imaginar que, ao escrever, aquele cara escutou uma música no ouvido. E  eu quero lembrar que música foi essa. Se ele colocou as palavras nessa  seqüência, ouviu isso de algum jeito e eu quero tentar achar o jeito que  ele ouviu. Por isso, às vezes é muito difícil você fazer teatro  traduzido. O texto perde a música que o autor ouviu. Tem a música que o  tradutor ouviu, mas ele não é um dramaturgo.</p>
<p><strong>P &#8211; Faltam textos na dramaturgia  brasileira? É possível estimular essa produção?</strong><br />
R &#8211; Faltam,  sim. Às vezes, me perguntam o que eu gostaria que o governo fizesse  pelo teatro. Não matando o público de fome, já está bom. Dando escola  até a oitava série, já me ajuda. Outro dia, eu estava vendo um quadro do  Monty Python na televisão, era um jogo de futebol de chorar de rir, de  São Tomás de Aquino contra os filósofos alemães. Hilário. Mas me deu  vontade de chorar. Quando é que no Brasil vou poder fazer um quadro  assim? A partir da cultura, você tem mais coisa para falar sobre! Senão,  você vai ter que falar do que não se aprende na escola. E o que não se  aprende na escola? Sexo, preconceitos. Você não precisa entrar na escola  para aprender que a gostosa é burra, que o veado é quá,quá, que o velho  é matusalém. E fica repetindo isso. Isso é falta de escola. A gente se  ressente muito. Ou não tem o cara que escreve ou tem o cara que escreve  mas não tem quem entenda.</p>
<p><strong>P- Ou seja, a questão social  está sempre presente.</strong><br />
R &#8211; Não dá para levar esse papo sem  falar da divisão de classe, não dá. Nos Estados Unidos, você tem um  Woody Allen muito satisfeito, que faz milhões de filmes. Não é um  blockbuster, mas ele vive muito bem porque tem o público dele. Lá existe  segmentação de mercado, aqui você não tem<strong>. </strong>É a<strong> </strong>injustiça da distribuição de renda. Ou você fala para doze que  estudam ou fala para doze milhões que não estudam.</p>
<p><strong>P &#8211; Você não acha que isso está  mudando, que o País caminha para se consolidar como uma democracia de  massa?</strong><br />
R- O problema é que está comido pela falta de  cultura. A pobreza nunca vem sozinha, ela traz junto a ignorância, traz  junto a doença, a violência, a corrupção, a falta de ética.</p>
<p><strong>P &#8211; A cultura não pode ser um  grande caminho para mudar essa situação?</strong><br />
R- Pode, é o único.  Lembra numa família bem pobrinha, quando tem uma tia solteirona que  traz uns fascículos do ramo de artes, gênios da pintura? Ou um tio veado  que por acaso leva os sobrinhos duas vezes a uma exposição? Isso é um  raio de luz que entra numa família. É a possibilidade de salvação,  entende?</p>
<p><strong>P- E se aposta muito pouco  nisso, não?</strong><br />
R &#8211; É aquela música do Arnaldo, a gente não quer  só comida. Acho que o ser humano precisa viajar, precisa alterar os  seus estados de consciência. E isso o traficante, o pastor,  sacam muito  antes do Ministério da Cultura.</p>
<div id="attachment_151" class="wp-caption alignleft" style="width: 220px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/marisaorth02-selma-morent.jpg"><img class="size-full wp-image-151" title="marisaorth02---selma-morent" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/marisaorth02-selma-morent.jpg" alt="" width="210" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Faço música para me dar um frio na barriga de novo. Estou sentindo falta de um frio na barriga. Arriscar, afinar o sangue.&quot; <em>Foto: Selma Morente</em></p></div>
<p><strong>P &#8211; Na sua trajetória como  atriz, quais são as personagens prediletas?</strong><br />
R &#8211; Adoro essa  mulher que fiz agora no teatro em <em>Fica Comigo esta Noite</em>. A  personagem não tem nome, chama-se Ela. Gosto muito da Nicinha e da  Magda. Também gosto muito da Maralu Menezes, minha personagem na banda  Vexame. Ela anda sozinha, nunca tive um texto decorado, tem vida  própria. Fiz dezoito anos de show com a Maralu. Eu brinco que ela é tudo  que eu queria ser. Ela é um monstro e tem um coração de ouro. Como  esses que a gente vê no Brasil. Ela fez de tudo para subir na carreira,  traficou criança, é assim com os homens do poder. Na última vez, ela  tinha arranjado uma grade na TV Senado, estava amicíssima do baixo  clero. Foi pega porque estava vendendo churros superfaturados, ela só  botava recheio nas pontas, não botava recheio no meio, ali, no  Congresso. Ela era amigona do Valdomiro Diniz, era assim com o  Valdomiro. Ela gostava muito de capiroska, um monstro. Mas um coração  bonito, uma pessoa boa. No Brasil tem muita gente assim. Vendeu as  filhas da empregada, é verdade, mas é uma boa pessoa.</p>
<p><strong>P- São todas personagens ligadas  à comédia&#8230;</strong><br />
R &#8211; Agora me lembro de completar sua pergunta  lá atrás. Eu parei um pouco de ter preconceito com a comédia quando vi  que a linhagem dos comediantes no Brasil é das mais nobres. Já me  compararam à Dulcina de Moraes e eu fico numa alegria enorme. Não vou  jogar fora, eu adoro e acho bom. Vou achar ruim que o povo me ame?</p>
<p><strong>P &#8211; Você sente isso nas ruas?</strong><br />
R  &#8211; Sinto muito, um tesão. Sinto que eu levo muita alegria para as  pessoas. O budismo também me ajudou porque no budismo fazer rir é mais  meritório, em termos de carma, do que a caridade. Eles têm em alta conta  o humor. Por isso eles são tão risonhos. Eles dão muito valor para a  risada, para a alegria.</p>
<p><strong>P &#8211; A Denise Fraga disse que  você, assim como ela, mais a Andréa Beltrão, a Débora Bloch e outras da  mesma geração podem ser consideradas filhas de Marília Pêra. Você acha  isso também?</strong><br />
R &#8211; Sim, totalmente, totalmente. Eu via a  Regina Duarte e falava, hum, não é pra mim porque aquela cara eu não  tenho. Já começa pela coisa da beleza, que a Marília não é uma beleza  padrão. Ela tem uma cara estranha, característica. Eu via a Renata  Sorrah. e falava também não é. Via a Dina Sfat, aquela beleza, também  não, a Eva Wilma, outra bonitona&#8230; Aí vem a Marília, que tinha aquela  cara estranha, que fazia comédia, eu falei, ah, então, dá. Eu posso  existir. Ela legitimou a minha existência. Acho ainda hoje que a Marília  está entre as três melhores atrizes do mundo.</p>
<p><strong>P- E essa questão da expectativa  de ser chamada para um papel? Como é para uma atriz ter que esperar ser  escolhida para um papel? É muito angustiante?</strong><br />
P &#8211; O difícil  da nossa profissão são as bifurcações. E Murphy, que é nosso padroeiro.  Só que a gente tem muita sorte. Nossa vida é muito boa, antes de mais  nada. Eu tenho um grande orgulho de nunca ter pisado num escritório. Mas  quando não chamam, ninguém chama. E quando um chama, são três que  chamam. E aí bifurca. Como é que eu vou saber se pego essa peça ou esse  filme, essa novela&#8230; e é tudo ao mesmo tempo. E você está se lembrando  que no ano passado ficou no desespero achando que tinham te esquecido.  Aí, você pega duas coisas, três coisas. Então, a vida de atriz é oscilar  entre reclamar que está trabalhando muito e, depois de quinze dias sem  trabalhar, reclamar que te esqueceram, que você está fora de moda. A  gente obedece a uma espécie de bolsa de sucesso, que não se explica.  Corre paralelo, é outra bolsa. Tem mais a ver com biorritmo, astrologia.  Por isso é que, não raro, as atrizes e atores são muito místicos,  porque a gente precisa dar um jeito de compreender, antecipar o futuro. É  preciso ver se aquela escolha que fizer agora vai ser boa adiante.</p>
<p><strong>P &#8211; É possível perceber aquele  que administrou a carreira, que fez as melhores escolhas e o que não  fez?</strong><br />
R- Aí é que você vê que são vários tipos de talento.  Tem talento e vocação. Depois de um certo tempo, eu achava que era só  fazer os papéis bem pra caramba e estava tudo certo. Mas, a partir de  uma certa idade, para qualquer artista, o talento é você juntar sua vida  pessoal com a sua vida artística. Existe casamento. Frank Sinatra é  mesmo a melhor voz ou teve a melhor esposa? Será que não morreram outras  melhores vozes estouradas no poste ou de alcoolismo? Antes, eu achava  que era só talento. Também achava que, se você fosse boa atriz, tinha  que fazer qualquer papel e faria bem. Não, tem uma vida paralela que  começa a correr na sua vida que são os papéis que caem na sua mão. Isso é  uma coisa meio sincrônica, é uma coisa mística. Eu, que fui criada a  vida inteira para ser inteligente e achei que a inteligência era o maior  trunfo para alguém ser amado, fui celebrizada como a Magda &#8211; uma ameba,  uma mulher burríssima. E até hoje sou a quinta pessoa mais vendida na <em>Playboy</em>.  Na minha frente, só tem a Scheila, a  Feiticeira, a Tiazinha e a  Adriana Galisteu. Quinto lugar até hoje! Você acredita que isso  aconteceu comigo?</p>
<p><strong>P &#8211; A Magda&#8230;</strong><br />
R-  Foi um aprendizado para mim a Magda, foi bonito demais.</p>
<p><strong>P- Você temeu ficar marcada?</strong><br />
R  &#8211; Eu temi e fiquei. Agora, tudo que eu queria era fazer sucesso. Atire a  primeira pedra o ator que diz que não quer fazer sucesso. Ao mesmo  tempo, é uma coisa ruim porque aí você tem que fazer mais.</p>
<blockquote><p>&#8220;Se for atriz de verdade, é generosa. É difícil uma atriz mesquinha. E são mulheres inteligentes.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>P &#8211; É o medo de se repetir e de  ficar uma atriz de um papel só?</strong><br />
R &#8211; A gente quer é fazer  vários papéis, viver várias vidas. A gente é boa nisso, por isso é  atriz. Então, tem que aprender a dizer não. Às vezes, tem que abrir mão,  sim.</p>
<p><strong>P &#8211; E o fascínio que as atrizes  exercem? É por tudo isso que você falou?</strong><br />
R &#8211; Eu acho que se  for atriz de verdade é generosa. É difícil uma atriz mesquinha. Tem uma  generosidade &#8211; eu me arriscaria a dizer isso só. E são mulheres  inteligentes.</p>
<p><strong>P- Qual o segredo dessa  vitalidade?</strong><br />
R- Porque é inerente, é orgânico. Tem até em  tribo indígena, aliás&#8230; Um documentário que a Letícia Sabatella está  fazendo com o Gringo, na tribo krahô, tem uma figura muito importante  que é o palhaço. Eles descobriram isso, é super legal. Não é o pajé,   não é o chefe, é o palhaço. Ele educa as crianças e dissolve os  conflitos. Ele faz rir. É o teatro.</p>
<p><strong>P- Você se sente confortável em  viver sob holofotes?</strong><br />
R- Eu me sinto extremamente  confortável, extremamente confortável. Quando você está sob holofotes,  está tudo organizado. Quem está olhando está lá, sentado, numa mesma  direção. Então, não tem ninguém nas suas costas te olhando, você não tem  que se preocupar com a sua bunda. Dá uma insegurança esse negócio, esse  improviso na vida real&#8230; Ninguém decora texto, ninguém acerta o  figurino, as pessoas entram quando não tem que entrar, me dá uma  aflição! Ali é bom porque está organizado, ali eu sei o que dizer, eu  vou para uma cabine, eu me transformo. Fico pequenininha, perna para a  direita, braço para a esquerda. Quando eu estou bem num papel, estou  desaparecida do mundo. Ninguém me acha, nem um detetive. Naquele  momento, não tem mãe, não tem marido, não tem filho. Nem filho, eu já  testei.</p>
<p><strong>P &#8211; A Elis Regina dizia isso,   que a coisa que ela achava mais interessante na vida era cantar, nem os  filhos tinham tanta graça.</strong><br />
R- Impressionante, não tem.  Organiza, relaxa. Aquele desespero que a gente vive constantemente, de  estar agradando ou não, por uma hora e meia você tem um pouco de  controle sobre isso! Muito bom.</p>
<p><strong>P &#8211; É terapêutico?</strong><br />
R  &#8211; É super terapêutico. Assim como é muito bom quando vem aquele momento  dramático, ah, eu vou poder matar fulano, eu vou poder&#8230; você vai com  tesão. Outra coisa terapêutica, tranqüilizadora, é você falar ‘agora,  fulano entra´e ele entra! Naquele momento eu desapareço e tenho a ilusão  de ter a realidade sob controle.</p>
<p><strong>P &#8211; Você vai fazer música de  novo? Você tem essa habilidade de ir para cá e ir para lá&#8230;</strong><br />
R-  Vou, vou fazer um showzinho novo aí, morrendo de medo. Eu morro de  medo. Eu faço música para me dar um frio na barriga de novo. Estou  sentindo falta de um frio na barriga. Arriscar, afinar o sangue.</p>
<p><br class="br" /><br />
<a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/" target="_blank">Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento</a></p>
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		<title>Atriz em todos os momentos e sentidos</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 03:40:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Novidadeira e  curiosa é como se define a atriz gaúcha Mirna Spritzer. Foi esse  espírito inquieto que a levou a múltiplas atividades ao longo da  carreira profissional – professora de arte dramática, autora de livros,  diretora e pesquisadora de radioteatro, entre as mais notórias.
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_140" class="wp-caption alignleft" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/mirnaspritzer01-alexandreba.jpg"><img class="size-full wp-image-140" title="mirnaspritzer01-alexandreba" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/mirnaspritzer01-alexandreba.jpg" alt="" width="280" height="186" /></a><p class="wp-caption-text">Mirna acredita que é próprio das atrizes ter uma visão fantasiosa e ficcional do mundo <em>Foto: Alexandre Bazzo</em></p></div>
<p>Novidadeira e  curiosa é como se define a atriz gaúcha Mirna Spritzer. Foi esse  espírito inquieto que a levou a múltiplas atividades ao longo da  carreira profissional – professora de arte dramática, autora de livros,  diretora e pesquisadora de radioteatro, entre as mais notórias.</p>
<p>Tudo isso, no  entanto, sempre convergiu para o sentido maior de sua vida, que é o  ofício de representar, como ela conta na entrevista que concedeu nos  intervalos de ensaios para o teatro e gravações para a televisão.</p>
<p>“Todas as coisas que  faço giram em torno do fato de ser atriz”, deixa claro Mirna, que  enxerga o mundo com a visão fantasiosa e ficcional que considera  característica das atrizes. Tornar-se atriz, o que ela acha que sempre  foi, significou ainda uma atitude transgressora para alguém que se  reconhecia como uma moça bem-comportada e parecia destinada a outras  searas profissionais.</p>
<p>A sua formação como  atriz passa principalmente pelo teatro, “ali, com o público respirando  junto”. Uma citação de Peter Brook ilustra bem o profundo interesse de  Mirna pela maneira como os atores criam seus personagens: “Um processo  de carne e sangue que se desdobra na sua frente”. E é curioso que ela  tenha procurado preservar o seu próprio processo criativo sob um manto  de mistério, como se desvendá-lo pudesse comprometer a liberdade de seu  olhar.</p>
<p>Uma parte de seus  estudos pode ser desfrutada no livro<em> A</em> <em>Formação do Ator: Um  Diálogo de Ações,</em> publicado pela Editora Mediação. É possível  também conferir um de seus trabalhos mais recentes como atriz no site <a href="http://www.clicrbs.com.br/rbstv" target="_blank">www.clicrbs.com.br/rbstv</a>,   que exibe episódios da série <em>Fantasias de Uma Dona de Casa. </em>Produzida  para a televisão gaúcha, a partir um curta-metragem realizado pela Casa  de Cinema, a série é um bom exemplo dos caminhos culturais que o Rio  Grande do Sul aprendeu a trilhar. (<strong>Beth Cataldo</strong>)</p>
<blockquote><p>&#8220;Muitas vezes estamos mais próximos de Montevidéu e Buenos Aires do que do Rio ou São Paulo.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>Pergunta – É  muito raro se fazer uma ponte entre Minas e o Sul, não?</strong><br />
Resposta  – É uma pena, porque somos muito parecidos.</p>
<p><strong>P – Como  você avalia essa realidade cultural brasileira em que existe pouco  intercâmbio direto entre as várias regiões e uma mediação constante do  eixo Rio-São Paulo?</strong><br />
R – Acho que isso é uma complicação e  talvez para nós, aqui no Sul, seja um pouco pior. Porque muitas vezes –  muitas vezes mesmo – estamos mais próximo de Buenos Aires e Montevidéu  do que do Rio, São Paulo ou Belo Horizonte. E principalmente porque,  necessariamente, por mais que a gente se esforce, não somos a metrópole,  seremos sempre a província. A gente até brinca, no caso de Porto  Alegre, que temos todos os defeitos de uma cidade pequena e todos os  defeitos de uma cidade grande.</p>
<p><strong>P – Não há  um certo empobrecimento cultural do País na medida em que se reduz o  espaço das manifestações culturais fora dos grandes centros?</strong><br />
R  – Há uma questão forte aqui no Sul porque somos muito bairristas.  Costumamos brincar que é difícil passar o rio Mampituba , que divide o  Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Temos sempre tantas exigências e  condições em relação a tanta coisa que, às vezes, é complicado. No caso  do teatro, vivemos no passado um êxodo bastante forte para São Paulo e  Rio de Janeiro, quando se foram Paulo José, Lilian Lemmertz, Fernando  Peixoto, Ítala Nandi&#8230; Depois, durante um certo período, as pessoas  ficaram aqui. O que a gente vê agora é uma coisa mais interessante, são  muitos grupos de teatro circulando, seja pelo projeto Petrobras, pelo  Sesc, ou por conta própria mesmo, por projetos do próprio grupo. Com  bastante freqüência, os grupos saem e se apresentam fora, voltam, vão a  festivais, voltam – isso permite uma circulação interessante. Mesmo  assim, muitos atores e diretores ainda saem em busca de mais  visibilidade e oportunidades. Também em termos de circulação, depois de  muito tempo, já pelo terceiro ou quarto ano, temos o Palco Giratório do  SESC, que é um projeto interessante, que traz espetáculos de outros  lugares do Brasil, e não necessariamente de São Paulo ou do Rio. Ou pelo  menos não aqueles que seriam os espetáculos de celebridades.</p>
<p><strong>P – Aqueles  que chegariam naturalmente ou comercialmente?</strong><br />
R – Exato, são  espetáculos basicamente de grupos. Então, me parece que essa é uma  forma interessante de intercâmbio, de conhecer um pouco o que as pessoas  estão fazendo. De Belo Horizonte, a gente tem com bastante freqüência o  Grupo Corpo e o Grupo Galpão. O Galpão é freqüentador assíduo de Porto  Alegre, ainda bem. Sou uma grande admiradora deles, são muito  relacionados com os grupos gaúchos, como o Terreira da Tribo, que é um  grupo importante aqui. Acho que essa é uma maneira que tem conseguido  dar conta um pouco dessa defasagem, para a gente conseguir saber sem  precisar carimbar o passaporte em São Paulo ou no Rio de Janeiro. E  principalmente, isso é importante, podendo conhecer de São Paulo e do  Rio outros trabalhos que não aqueles ligados aos atores que estão na  Globo – nada contra, enfim, mas que possam haver outros também.</p>
<p><strong>P – Uma  questão que temos colocado para todas as atrizes entrevistadas é sobre a  motivação de se tornar atriz. Existe uma certa dose de ousadia e de  transgressão nesse ofício?</strong><br />
R – Acho que sim. É muito  interessante porque vivo justamente um momento em que estou filmando e  ensaiando um espetáculo, depois de algum tempo em que fiquei muito  dedicada ao ensino e principalmente à pós-graduação. Estou vivendo um  momento de ser atriz intensamente. Acabei de fazer 51 anos e, talvez  pela idade, tem um momento da vida em que tu começas a perceber que os  caminhos nunca foram separados. Por algum motivo, a gente separou o que é  inseparável. Tenho a sensação de que é um pouco o sentido desse  momento. Na verdade, todas as coisas que faço giram em torno do fato de  ser atriz. Eu costumo brincar que a minha visão do mundo é uma visão de  atriz, é fantasiosa, ficcional&#8230; Acho que é uma forma de transformar as  coisas, de trazer para um outro patamar, que é mais ficcional, digamos  assim. É quase como se ver de fora, estar se vendo o tempo todo. Tenho  certeza de que amo dar aulas, trabalho com formação de atores, trabalho  com rádio, e tudo o que eu faço parte desse princípio, que é o de ser  atriz. Quando decidi na prática ser atriz, acho que isto já estava  decidido dentro de mim. A impressão é que eu só assumi. Primeiro, fiz  faculdade de arquitetura, me enrolei, me enrolei, até que assumi que ser  atriz era o que eu ia fazer na vida. Pensando hoje, acho que essa  decisão tinha sido tomada muito tempo antes e que, na verdade, eu só fiz  dar um pouco de volta para ter coragem e também para tranqüilizar os  meus pais.<strong> </strong></p>
<p><strong>P – Os seus  pais eram contra, de alguma maneira?</strong><br />
R – Eles nem chegavam a  ser contra, eram preocupados com o que isso significava. Com quem ela  vai conviver, como é que ela vai se virar para sobreviver, não é?</p>
<p><strong>P – Foi uma  vocação prematura para você?</strong><br />
R – Acho que sim, acho que sim.  Minhas lembranças de escola são relacionadas a isso. A impressão que  tenho é que tudo que eu fazia na escola, mesmo o que não era teatro, era  teatro. Essa coisa de ser a palhaça da turma. Não quer dizer que fosse  desembocar numa carreira de atriz, mas, no meu caso, eu associo. Na  verdade, foi a coisa mais transgressora que fiz na minha vida, porque eu  sempre fui uma moça muito bem-comportada.</p>
<p>P –<strong> Pelo que  você fala, tudo te encaminhava para outras carreiras.</strong><br />
R – E  para um olhar sobre as coisas bem mais comportado. Sou sempre muito  apaixonada. Se estou dando uma aula, vendo meus alunos em pleno  processo, é sempre uma coisa muito apaixonante. O Peter Brook diz que é  um processo de carne e sangue que se desdobra na sua frente. Não tem  como ser de outra forma. Também não tem muito como ser meia-boca. Vou te  dizer, sou uma pouco apaixonada demais por tudo. Para mim, é difícil  imaginar que alguém possa fazer alguma coisa sem paixão.</p>
<div id="attachment_141" class="wp-caption aligncenter" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/mirnaspritzer02-divulgacao.jpg"><img class="size-full wp-image-141" title="mirnaspritzer02-divulgacao" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/mirnaspritzer02-divulgacao.jpg" alt="" width="280" height="210" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Para mim, é difícil imaginar que alguém possa fazer alguma coisa sem paixão.&quot; <em> Foto: Divulgação</em></p></div>
<p><strong>P – Você é  autora de livros, professora de interpretação na universidade, faz  teledramaturgia, radioteatro, é diretora e tem uma sólida formação  intelectual. Tudo isso foram contingências na sua vida?</strong><br />
R –  Sou muito curiosa e muito novidadeira, no bom sentido e no quanto isso  pode atrapalhar de vez em quando. Aparentemente, são muitas coisas, mas  todas elas nascem do mesmo fascínio. Fui fazer rádio porque achava  fascinante um ator no rádio, como exercício e desafio. Eu dou aula para  atores porque quero ver o processo dos atores. Meus orientandos da  pós-graduação são atores ou diretores buscando um pouco de reflexão em  cima da sua prática. Daí, talvez, sim, ser uma atriz muito curiosa e  interessada no processo de criação, naquilo que move um ator para a  criação. Embora tenha sempre tentado colocar esse olhar sobre o trabalho  dos outros, busquei preservar no meu próprio processo de criação de  atriz um olhar um pouco mais livre, tentando manter um pouco de mistério  sobre o meu próprio processo.</p>
<p><strong>P- O temor é  de que você poderia tornar esse processo muito racional?</strong><br />
R-  É, são coisas que eu estou percebendo nesse momento. Embora eu tenha  estudado bastante e trabalhe muito com o outro, com outro ator, com o  meu próprio trabalho eu fui sendo mais comedida, trazendo para o meu  processo aquilo que me desafia mais, que me coloca num estado apropriado  para trabalhar. Tem um amigo meu que diz isso, que temos de tentar  manter o mistério, e há um mistério concreto que faz com que a gente  crie.</p>
<p><strong>P &#8211; O mundo  dos atores e das atrizes tornou-se um mundo marcado pelo consumo das  celebridades. Como você avalia esse fenômeno?</strong><br />
R – Pra mim, a  grande questão desse surto de celebridade é que ele não está  relacionado só aos atores. É sobre qualquer pessoa colocada numa posição  que, por qualquer motivo, se torne alguém de quem eu deva saber a vida,  alguém que é um sucesso, seja lá o que for esse sucesso. Essa pessoa  pode ser um jogador, um ator, um cantor e pode ser um homem que atira a  filha pela janela. Ou pode ser o maníaco do parque. Acho assustador isso  porque é uma coisa quase descontrolada. É óbvio que ninguém vai ser  ator ou atriz se não gosta da exibição que isso traz, não existe isso. É  hipócrita dizer que adora ser atriz se tu não gostas do que vem junto,  que é a exibição, a exposição. Agora, se isso ultrapassa aquilo que diz  respeito ao porquê tu te tornas famosa ou reconhecível pelas pessoas, ao  trabalho que tu fazes. Quando isso ultrapassa o motivo que gerou essa  exposição, daí é avassalador.</p>
<p><strong>P – Como as  pessoas de outras regiões não conhecem muito a história teatral do Rio  Grande do Sul, pergunto sobre isso e também sobre como você se reconhece  nesse contexto.</strong><br />
R – Acho que a grande tradição do teatro no  Rio Grande do Sul, e mais especificamente de Porto Alegre, é do teatro  de grupo. Talvez porque a gente tenha sempre disputado com Belo  Horizonte, Salvador, quem era o terceiro lugar&#8230; Sempre éramos o  terceiro, ou o quarto ou o quinto, mas jamais fomos o primeiro ou o  segundo lugar no teatro brasileiro. E sempre enfrentando dificuldades  sérias por não ter um mercado de trabalho artístico, como é possível  numa grande metrópole. Acredito que o lado favorável disso foi a criação  e a manutenção de grupos fortes de teatro em Porto Alegre. Nesse  momento, temos um grupo que está fazendo vinte anos, o Stravaganza, e  outro que completa trinta anos, o  Terreira da Tribo, talvez mais  conhecido nacionalmente. Alguns grupos já têm uma idade maior, mas é um  movimento como a vida mesmo – alguns nascem, se mantém por algum tempo,  desaparecem, outros vêm.</p>
<p><strong>P – Outra  questão que também chama atenção no Rio Grande é o pólo cinematográfico  que surgiu aí. Você também atuou em filmes e tem condições de falar  sobre esse movimento.</strong><br />
R – Tenho uma carreira pequena em  cinema, certamente menor do que eu gostaria. Aqui tivemos, iniciando  mais ou menos na mesma época em que eu comecei como atriz, há trinta  anos, um movimento forte de Super 8, que veio a desembocar em inúmeros  cineastas e realizadores. Entre eles, temos a Casa de Cinema de Porto  Alegre, que talvez seja a mais reconhecida, mas podemos citar também a  Clube Silêncio, que é uma produtora importante e que acabou de fazer um  filme com o Beto Brant, o <em>Cão sem Dono</em>. Esse movimento foi tão  forte que favoreceu a criação de três cursos de graduação em cinema,  todos aqui em torno de Porto Alegre.</p>
<p><strong>P – O  surgimento desse pólo de cinema foi graças a subsídios oficiais ou mais  ligado à iniciativa privada?</strong><br />
R – O cinema movimenta um  capital muito grande, emprega muito gente e as pessoas de cinema tem uma  capacidade de organização e de representação muito fortes. Acho que  essa união da categoria acima de toda e qualquer pequena querela  garantiu ao movimento uma capacidade de produção muito legal e  principalmente uma qualidade de produção muito boa. O próprio exemplo de  teledramaturgia teve como início a abertura de um horário na  programação da televisão em que se começou mostrando os curtas-metragens  produzidos no Rio Grande do Sul. Daí a pouco, isso foi crescendo,  crescendo, e hoje há dois ou três horários na RBS, tanto da TV aberta  como da UHF, com espaço para produções de ficção. É um movimento  importante, que vem crescendo, e que acho extremamente revigorante.</p>
<p><strong>P – É nesse  espaço que você está fazendo a personagem Carmem, da série </strong><em><strong>Fantasias  de Uma Dona de Casa</strong></em><strong>?</strong><br />
R – Sim, isso é  uma coisa muito legal porque foi um curta em que eu trabalhei, há uns  cinco anos, feito para esse horário, numa produção da Casa de Cinema com  a RBS. Agora, em função da repercussão, resolvemos transformar num  seriado, que está tendo também um excelente reconhecimento.</p>
<p><strong>P – O Sul  sempre teve também uma tradição muito forte no rádio e você tem essa  experiência com o radioteatro&#8230;</strong><br />
R – O Rio Grande do Sul foi  talvez o terceiro pólo de produção radiofônica de ficção até o final  dos anos 50. As emissoras chegaram a ter em <em>casting</em> de cem  pessoas, com diretores, escritores&#8230; Eu comecei a me aproximar disso  porque sempre fui muito apaixonada por rádio. Na minha casa, desde  pequena, meu pai não entendia a vida sem um rádio ligado. Mas, na  verdade, o que me despertou mais foi a possibilidade de ser atriz no  rádio. Isso é uma coisa deslumbrante para mim. O trabalho sobre a  palavra me encanta e me aproxima muito da literatura também. Penso que o  ator tem esta relação com a palavra que antecede o veículo, que diz  respeito à imaginação que ela suscita.</p>
<p><strong>P – É  interessante que tenha sobrevivido esse radioteatro nos tempos modernos,  não?</strong><br />
R – Existem experiências em todo o Brasil. É claro que  tem gente que trabalha sobre aquela estética mais melodramática. O que  procurávamos aqui era tentar encontrar o que seria um radioteatro  contemporâneo.</p>
<div id="attachment_142" class="wp-caption aligncenter" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/mirnaspritzer03-divulgacao.jpg"><img class="size-full wp-image-142" title="mirnaspritzer03-divulgacao" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/mirnaspritzer03-divulgacao.jpg" alt="" width="280" height="186" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;O ator não precisa mais estar submisso a todas as vontades e desejos do diretor, sem questioná-lo, porque ele também é um criador.&quot;  <em>Foto: Divulgação</em></p></div>
<p><strong>P – Gostaria  de saber a sua avaliação sobre a história retratada no filme </strong><em><strong>O  Crime da Atriz</strong></em><strong>, em que a personagem tenta mudar a  orientação do diretor em  busca de um espaço de expressão mais  generoso. Você já viveu alguma coisa parecida?</strong><br />
R – O filme  suscitou várias questões para mim. A primeira delas é que um ator  compenetrado, um ator bem-formado, jamais faria isso, jamais ocuparia o  espaço dessa forma tão avassaladora. Ao mesmo tempo, me parece que tem  um pouco da mudança do próprio teatro, da própria tradição da  interpretação, que é aquele círculo traçado no chão. Ou seja, ali só  pode estar a diva, ninguém atua ali. Dizem que o Procópio Ferreira era  assim, ele tinha um espaço no centro do palco, e que, dois dias ou um  dia antes da estréia, ele ia e fazia o que queria. Os outros ensaiavam  em volta daquele círculo. E essa outra mulher que tem a ousadia, o que  acho maravilhoso, de criar uma história para uma personagem que é quase  uma figurante, a história do marido&#8230; Sim, ela é uma ‘criminosa’, ocupa  um espaço que não seria dela, mas o transforma em seu.<strong> </strong>Parece que  está embutida ali essa transformação também na arte da interpretação.  Não basta mais ser um elemento decorativo, que faz caras e bocas, e ais e  uis, mas é necessário uma outra composição, realmente um trabalho de  criação mais complexo.</p>
<p><strong>P – É como  se ela estivesse em busca de uma alma.</strong><br />
R – Sim, e a traz  para cena. Outra coisa que acho importante é que vivemos um momento  importante para os atores. O ator não precisa mais estar submisso a  todas as vontades e desejos do diretor, sem questioná-lo, porque ele é  também um criador. No caso do filme, na verdade, o diretor também não  faz muito mais do que desenhar o círculo no chão e decidir quem entra em  que hora, quem sai em que hora, de que lado entra, por que lado sai.  Claro, se a gente pensar num encenador que concebe o mundo através do  espetáculo, concebe uma forma de fazer teatro, enfim, é um pouco  diferente. Mas penso que o ator é sempre um criador, independente de  trabalhar num ou noutro processo de trabalho. Tem diretores que chegam  no primeiro dia de ensaio e já sabem toda a marcação que vai fazer, do  início ao fim. E outros que constroem o trabalho de uma forma mais  coletiva. Não importa, desde que o ator tenha consciência de seu papel  de criador em cada processo.</p>
<p><strong>P – É como  se alguns diretores tratassem os atores apenas como bonecos?</strong><br />
R-  De qualquer forma, isso é impossível porque o ator é outra pessoa. E  essa outra pessoa, por mais que siga à risca todo esse desenho de  marcação, vai fazer isso de outra forma. Então, esse espaço da criação  existirá sempre.</p>
<p><strong>P – E essa  pessoa tem o sangue ali&#8230;</strong><br />
R – Passa pelo filtro do corpo  dela, é no corpo dela que se desenha  aquilo. Existem as experiências  mais contemporâneas de processos colaborativos, de trabalhos em que o  diretor provoca os atores, faz com que eles tragam, com que eles  produzam, com que eles criem através de imagens, sons, e em cima desse  material é que ele vai constituindo o espetáculo. Mas sempre acho que  essa relação ator e diretor pode ser  muito rica desde que todo mundo  conheça bem o seu papel na estrutura daquele espetáculo, ou daquele  grupo, e possa viver bem com isso.</p>
<p><strong>P – Na  conversa com as atrizes, é possível perceber, às vezes, a angústia da  criação e a frustração de nem sempre conseguirem colocar o seu lado  criativo em cena.</strong><br />
R – Eu trabalhei muito tempo em grupo,  muito tempo com uma diretora. A gente já tinha tanta cumplicidade entre  alguns atores e dos atores com a direção que, na verdade, já concebia um  pouco junto as coisas. Esse trabalho foi uma grande escola para mim,  fundamental. Sempre digo que foi onde aprendi a ser artista em primeiro  lugar, mais do que ser atriz. E também a compreender o mundo, saber como  as coisas se movimentam, em que contexto tu estás fazendo as coisas.</p>
<p><strong>P – Como  atriz, você trabalha nessas linguagens diferentes, com cinema, teatro,  televisão. Você se identifica mais com alguma  dessas linguagens ou  vê  em cada uma delas um exercício válido?</strong><br />
R – Minha formação  toda é de atriz de teatro. Tem uma coisa que é do teatro, que é  praticamente inegociável, digamos assim, que é o fato de acontecer  agora, no presente. Então, esse se atirar sem rede é só do teatro. E é  tu quem resolve, não tem câmara, não tem microfone, o que acontecer ali,  o diretor não está ali para resolver, tu tens que resolver&#8230;</p>
<p><strong>P – Você,  seu corpo, sua voz&#8230;</strong><br />
R – É ali, com o público respirando  junto. Acho que essa experiência é impagável, e ela ensina e revigora.  Mas também acho que as outras linguagens te trazem um aprendizado muito  grande. Ator quer trabalhar, quer exercitar, fazer seu ofício, então,  acho muito rico também. Estou ensaiando um trabalho que se chama <em>Babel  Genet</em>, sobre a vida e a obra de Jean Genet. Saí direto das  filmagens do seriado para a televisão, para os ensaios gerais da peça. A  minha impressão é que um trabalho aquecia o outro. Na peça são seis  personagens principais e um coro de vinte pessoas. É um espetáculo bem  estranho, bem diferente, com uma narrativa não convencional. O projeto  ganhou um dos prêmios Funarte.</p>
<p><strong>P – Vocês  vão excursionar pelo Brasil?</strong><br />
R – A idéia é um pouco essa.  Quando a gente monta alguma coisa tem sempre em mente poder andar com o  espetáculo. Até porque eu acho que isso é uma coisa atávica no ator, que  é esse mambembe, saltimbanco. As pessoas não podem ver um carroção pela  frente que já acham que é para pegar a caixinha de maquiagem e ir  embora atrás.</p>
<div id="attachment_139" class="wp-caption alignleft" style="width: 202px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/noitescircenses.jpg"><img class="size-full wp-image-139" title="noitescircenses" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/noitescircenses.jpg" alt="" width="192" height="200" /></a><p class="wp-caption-text">Noites Circenses Regina Horta Duarte Editora da UNICAMP</p></div>
<p><strong>P – Um livro  chamado </strong><em><strong>Noites Circenses,</strong></em><strong> de  uma historiadora de Minas, a Regina Horta Duarte, fala muito do  nomadismo dos atores e de quanto isso é transgressor também, pela  própria percepção de que o ator é um ser diferente.</strong><br />
R –  Viajar com o espetáculo é uma coisa absoluta, assim. Significa colocar o  espetáculo e as pessoas numa outra situação. Por mais profissional que  seja, por mais que tudo esteja previamente planejado e organizado,  dificilmente vai ser tudo exatinho, certinho.</p>
<p><strong>P – Por fim,  perguntaria, dentro de tudo isso que conversamos, como você vislumbra o  processo de criação e a dramaturgia, tanto no Sul como a nível  nacional. O que você espera, Mirna?</strong><br />
R – A dramaturgia sempre  foi um pouco um calo, uma pedra no nosso sapato. É muito complicado  desenvolver dramaturgia aqui no Brasil. A gente demorou a criar essa  tradição Mas vejo alguns movimentos interessantes, em São Paulo, mesmo  aqui tem grupos, gente procurando, não é? Inclusive, fazemos agora na  universidade um encontro, às segundas-feiras, com o objetivo fazer  leituras de textos contemporâneos brasileiros. Temos conseguido alguns  textos bem atuais, escritos ontem. Acho cativante isso. É um reencontro  com o idioma também, dizer as coisas por palavras criadas por nós  mesmos, não traduzidas. Deus me livre alguém achar que eu não queira  fazer os autores de fora daqui, não é isso. Mas é uma experiência muito  interessante. Se a gente puder, cada vez mais, em termos municipais,  estaduais e federais, ter a compreensão de que só lei de incentivo não  significa uma política cultural, já seria uma grande coisa. A  responsabilidade pela produção cultural é maior do que simplesmente a  lei de incentivo. Como atriz, quero continuar a ser desafiada, ter a  sensação de que não está tudo pronto. Pelo contrário, essa sensação de  que a maturidade pode ser justamente a oportunidade do novo. É uma  percepção que estou achando muito plena.</p>
<p><a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/">Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento</a></p>
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		<title>Cacos, improvisos e uma vida de estrela</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 03:03:39 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#8220;Caco é quando se introduz uma outra  palavra no texto do autor. Ficou famosa uma coisa que eu falava  na peça  Em Família. Era uma peça séria, mas eu fazia muita graça da  personagem da velhinha. No texto, o homem dizia assim: ´Uma palavra que  eu não sei, não me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_265" class="wp-caption alignleft" style="width: 215px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/evatodor01-acervopessoal.jpg"><img class="size-full wp-image-265" title="evatodor01-acervopessoal" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/evatodor01-acervopessoal.jpg" alt="" width="205" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Não escrevem para a terceira idade&quot; <em>Foto: Acervo Pessoal</em></p></div>
<p>&#8220;Caco é quando se introduz uma outra  palavra no texto do autor. Ficou famosa uma coisa que eu falava  na peça  <em>Em Família</em>. Era uma peça séria, mas eu fazia muita graça da  personagem da velhinha. No texto, o homem dizia assim: ´Uma palavra que  eu não sei, não me lembro, está aqui na ponta da língua&#8230;´ E eu  completava: `Afta!´ Isso é um caco. O público vem abaixo. Agora, tem  gente, como o Jorge Dória, que sempre confundiu improvisação. Ele fazia  quinze minutos de palestra, fora da peça, de improvisação. Aí, deteriora  completamente o texto.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu tenho uma pequena frustração com o  cinema, gostaria de fazer mais. Nunca se oferece uma coisa válida para  mim. Infelizmente, no Brasil, principalmente hoje em dia,  ninguém  escreve para a terceira idade. Então, tem mulher nua, mulher isso,  aquilo, mas não tem para a terceira idade &#8211; um papel válido! Os autores  se esquecem, um pouco também na televisão, que têm atrizes de sucesso e  de um imenso público, mas que não são levadas em conta. Os autores não  escrevem para elas.&#8221;</p>
<p>&#8220;As duas atrizes mais talentosas,  talentosíssimas, que eu acho são a Marília Pêra e a Bibi Ferreira. A  Bibi sai de um gênero para outro, vai cantar, fazer ópera, dirigir&#8230;  Agora está fazendo uma comédia. Ela é maravilhosa, é cultíssima. Somos  muito amigas desde criança, desde o Teatro Municipal, no Rio de Janeiro.  Ela tinha dez anos e eu tinha uns doze. A gente não se vê muito, mas  ela mora perto de mim. Quando eu apareço ela diz assim: `Estava  tardando, até que enfim´. No dia em que fui lançar o meu livro em São  Paulo, a Bibi estava lá. Depois, eu soube que ela deu uma entrevista  para a televisão que começava assim: `Eva já nasceu estrela!´&#8221;</p>
<p><br class="br" /><br />
<a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/" target="_blank">Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento</a></p>
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		<title>A existência tomada por 68 personagens</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 03:01:35 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#8220;O teatro tomou a minha vida inteira. Eu  já fiz 68 personagens.&#8221;
&#8220;Nós somos o Teatro de Amadores de  Pernambuco, continuamos até hoje e não recebemos nenhum tostão.  Excursionamos pelo Brasil inteiro, há placas nossas em São Paulo, no Rio  Grande do Sul &#8211; onde chegávamos fazíamos bastante sucesso.&#8221;
&#8220;Tinha muita vontade de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_261" class="wp-caption alignleft" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/geninhadarosaborges01-ale.jpg"><img class="size-full wp-image-261" title="geninhadarosaborges01---ale" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/geninhadarosaborges01-ale.jpg" alt="" width="280" height="187" /></a><p class="wp-caption-text">A grande dama do teatro pernambucano <em>Foto: Alexandre Belém/JC Imagens</em></p></div>
<p>&#8220;O teatro tomou a minha vida inteira. Eu  já fiz 68 personagens.&#8221;</p>
<p>&#8220;Nós somos o Teatro de Amadores de  Pernambuco, continuamos até hoje e não recebemos nenhum tostão.  Excursionamos pelo Brasil inteiro, há placas nossas em São Paulo, no Rio  Grande do Sul &#8211; onde chegávamos fazíamos bastante sucesso.&#8221;</p>
<p>&#8220;Tinha muita vontade de montar a peça <em>Harold  and Maude</em>, cheguei a traduzir e a fazer toda no papel para o palco  giratório. De um lado, o vagão do trem, que era a casa dela, e do outro  teria a casa do rapaz, do rico. Minha vontade era montar isso no fim da  minha vida, mas a menina está fazendo, a Glória Menezes. Quando o Sul  está fazendo, a gente não pensa mais, não dá.&#8221;</p>
<p>&#8220;O grande sucesso nosso, que é pro lado  da comicidade, chama-se <em>Um Sábado em Trinta</em>, de Luiz Marinho,  um autor de Pernambuco. O sucesso da peça foi tão grande com o nosso  grupo que ele nos doou o texto, só nós podemos fazer essa peça. Levamos  todos os anos em abril e estamos em segundo lugar no Guinness, o livro  dos recordes. O primeiro lugar é da peça <em>A Ratoeira</em>, de Agatha  Christie, que vem sendo apresentada na Inglaterra há 52 anos. E nós  temos 36 anos ininterruptos com <em>Um Sábado em Trinta</em>.&#8221;</p>
<p><br class="br" /><br />
<a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/" target="_blank">Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento</a></p>
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		<title>No laboratório, com José Celso Martinez</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 02:59:16 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#8220;Estávamos ensaiando a peça Todo  Anjo é Terrível, de Ketti Frings,  em 1962, e o Zé Celso  (Martinez Corrêa) começava com aqueles negócios de laboratório.  Havia  uma hora em que eu tinha de ir contra o meu pai, que era representado  pelo Sadi Cabral. E o Zé Celso me chateando, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_256" class="wp-caption alignleft" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/lysiadearaujo01-acervo-pe.jpg"><img class="size-full wp-image-256" title="lysiadearaujo01---acervo-pe" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/lysiadearaujo01-acervo-pe.jpg" alt="" width="280" height="177" /></a><p class="wp-caption-text">Ela foi também uma cronista bem-sucedida nas antigas revistas Alterosa e O Cruzeiro <em>Foto: Acervo Pessoal</em></p></div>
<p>&#8220;Estávamos ensaiando a peça <em>Todo  Anjo é Terrível,</em> de Ketti Frings, <em> </em>em 1962, e o Zé Celso  (Martinez Corrêa) começava com aqueles negócios de laboratório.  Havia  uma hora em que eu tinha de ir contra o meu pai, que era representado  pelo Sadi Cabral. E o Zé Celso me chateando, chateando &#8211; ´você tem que  dar força, mais força.` Ele me chateou tanto que eu avancei nele &#8211;  ´pára, pára! ´ E  ele falou ´é isso que eu quero, Lysia! É isso que você  tem que fazer.` Ele era muito bravo.&#8221;</p>
<p>&#8220;A profissão mais fascinante da vida é o  teatro. Quando a Cecília Meirelles esteve aqui, nós levamos a <em>Medéia</em> em Ouro Preto. A Cecília foi me ver no teatro e me deu de presente o  livro dela, o <em>Romanceiro da Inconfidência</em>. Ela escreveu `À  belíssima e terrível Medéia, que seja feliz na carreira´. Está guardado  aqui.&#8221;</p>
<p>&#8220;A Tônia (Carrero) era um encanto, o  Paulo Autran, um encanto &#8211; um homem culto, muito bonito, um físico  maravilhoso. Quando ele fez <em>Um Deus Dormiu lá</em> <em>em Casa</em> eu fui assistir. Ele estava belíssimo e a Tônia, lindíssima. Quando ela  me encontrava no camarim, brincava assim:´Lysia, quem tem o olho mais  azul? Eu ou você?´ Eu dizia: &#8220;Claro que é você`.&#8221;</p>
<p><br class="br" /><br />
<a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/" target="_blank">Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento</a></p>
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		<title>A aventura do teatro de vanguarda no Brasil</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 02:52:21 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#8220;Não é que eu tenha essa idéia  missionária de que o artista precisa ter uma postura moralista &#8211; um  moralismo de esquerda. Não é bem isso. Não tenho nada contra o teatro  comercial, acho que numa grande metrópole isso deveria existir também. O  que sinto falta aqui no Brasil, nessa política [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_250" class="wp-caption alignleft" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/mariaalicevergueiro01-divul.jpg"><img class="size-full wp-image-250" title="mariaalicevergueiro01-divul" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/mariaalicevergueiro01-divul.jpg" alt="" width="280" height="201" /></a><p class="wp-caption-text">A atriz conquistou um novo público com o vídeo Tapa na Pantera, exibido na internet <em>Foto: Divulgação/Ioiô Filmes</em></p></div>
<p>&#8220;Não é que eu tenha essa idéia  missionária de que o artista precisa ter uma postura moralista &#8211; um  moralismo de esquerda. Não é bem isso. Não tenho nada contra o teatro  comercial, acho que numa grande metrópole isso deveria existir também. O  que sinto falta aqui no Brasil, nessa política cultural, é que isso não  foi muito despertado (o apoio ao teatro de vanguarda). É  costumeiramente visto como o teatro pobre, o teatro escolar, o amador.  Tem uma coisa meio piegas. Muitas vezes, você está no auge da pesquisa e  os companheiros são obrigados a se retirar porque têm obrigações. Isso é  que deveria ser mantido por um subsídio ou uma fundação. É o que tem na  França, por exemplo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Esse tipo de trabalho exige também, ou  pelo menos anseia, uma coletividade curiosa, aventureira. A própria  forma do grupo tem que ter alguma coisa apaixonada, olhando para frente.  O teatro pode ser o caminho para outras coisas porque o teatro mexe com  muitas artes.&#8221;</p>
<p><br class="br" /><br />
<a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/" target="_blank"> Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento </a></p>
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		<title>As predileções no teatro, no cinema e na TV</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 02:42:21 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#8220;O que mais gostei de fazer no teatro  foi a peça Seis Personagens à Procura de um Autor, de  Pirandello. Eu era a enteada. Foi o que eu mais gostei, sobretudo porque  várias pessoas que trabalharam com Cacilda (Becker) disseram assim:  ´Agora, você está melhor do que a Cacilda.` Pronto!&#8221;
&#8220;No cinema, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_244" class="wp-caption alignleft" style="width: 290px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/toniacarreiro02-beatriz-l.jpg"><img class="size-full wp-image-244" title="toniacarreiro02---beatriz-l" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/toniacarreiro02-beatriz-l.jpg" alt="" width="280" height="186" /></a><p class="wp-caption-text">Em Chega de Saudade, filme que não a decepcionou <em>Foto: Beatriz Lefebre</em></p></div>
<p>&#8220;O que mais gostei de fazer no teatro  foi a peça <em>Seis Personagens à Procura de um Autor</em>, de  Pirandello. Eu era a enteada. Foi o que eu mais gostei, sobretudo porque  várias pessoas que trabalharam com Cacilda (Becker) disseram assim:  ´Agora, você está melhor do que a Cacilda.` Pronto!&#8221;</p>
<p>&#8220;No cinema, para falar dos meus papéis  prediletos,  tenho que voltar a <em>Tico-tico no Fubá</em>. Se bem que  eu filmei também agora o <em>Chega de Saudade</em>, que é tão bom, é  muito bonito. Então, é <em>Tico-tico no Fubá </em>e sobretudo <em>Chega  de Saudade</em> &#8211; é o mais limpo, cumpriu aquilo tudo que a gente  esperava, não decepcionou.&#8221;</p>
<p>&#8220;O meu grande papel na televisão?  Stella, a minha personagem em <em>Água Viva</em> (novela da TV Globo).  Teve muito impacto na época. As pessoas adoravam! Discutiam na praia,  discutiam em todo lugar.&#8221;</p>
<p><br class="br" /><br />
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		<title>Uma experiência para nunca mais esquecer</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 02:04:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

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		<description><![CDATA[A atriz relata o ataque do Comando de  Caça aos Comunistas (CCC) aos atores da peça Roda Viva, em  1968:
&#8220;Eu tinha 22 anos. Foi uma situação que  virou a nossa vida de ponta-cabeça. A gente não tinha mais sossego. Como  eles saíram quebrando tudo com cassetetes e arrombando portas e  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_233" class="wp-caption alignleft" style="width: 234px"><a href="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/zezemotta02-divulgacao.jpg"><img class="size-full wp-image-233" title="zezemotta02---divulgacao" src="http://www.temaeditorial.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/zezemotta02-divulgacao.jpg" alt="&quot;Virou a nossa vida de ponta-cabeça&quot;" width="224" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Virou a nossa vida de ponta-cabeça&quot; <em>Foto: Divulgação</em></p></div>
<p>A atriz relata o ataque do Comando de  Caça aos Comunistas (CCC) aos atores da peça <em>Roda Viva</em>, em  1968:</p>
<p>&#8220;Eu tinha 22 anos. Foi uma situação que  virou a nossa vida de ponta-cabeça. A gente não tinha mais sossego. Como  eles saíram quebrando tudo com cassetetes e arrombando portas e  empurrando coisas, eu me lembro que passei muito tempo sem poder ouvir  barulho de vidro, era um trauma.</p>
<p>Se eu passasse por algum lugar e ouvisse  o barulho de um copo quebrando, achava que alguma coisa grave estava  por acontecer. Pesadelos, enfim, uma coisa horrível. Um trauma  horroroso. E entrar em cena&#8230; Diariamente, depois do ocorrido,  achávamos que a qualquer momento eles iam voltar.</p>
<p>A gente representava de forma muito  tensa porque estudantes universitários se apresentaram como voluntários  para nos proteger. Então, eles ficavam espalhados na platéia e nas  coxias, também armados de cassetetes, parece. Quando aconteceu o ataque,  foram encontrados cassetetes da Aeronáutica. Eu me lembro que os caras  que invadiram o meu camarim, por exemplo, tinham soco inglês.</p>
<p>Corri para o meu camarim quando vi que  tinha alguma coisa errada, mas percebi que não ia conseguir chegar a  tempo. Então, entrei no primeiro que estava aberto, que era do Rodrigo  Santiago. Entrei e falei ´eles estão vindo aí` e ele falava ´eles quem?`  Eu não sabia dizer.</p>
<p>Rodrigo, eu e os convidados dele, que  tinham ido lá para cumprimentá-lo, empurrávamos a porta. Mas eles nos  venceram com um extintor de incêndio. Foi horrível. Eles abriram o  extintor de incêndio por uma frestinha que a gente não conseguia fechar e  aí nós ficamos todos tontos. Fomos saindo e levando cassetada.&#8221;<br />
<br class="br" /><br />
<a class="wp-caption" href="http://www.lunarium.com.br/" target="_blank">Mais informações na revista Arte &amp; Conhecimento</a></p>
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